Você pode de fato ser obcecado por selfies, mas o distúrbio mental ‘selfitis’ não existe

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Imagem de topo: Getty

 

Dos anais de reportar ciência ruim vem a mais nova confusão cientifica: o resultado de um estudo sobre um suposto distúrbio mental ligado a selfies foi mal interpretado por portais de noticia – portais de noticia que caíram há três anos no mesmo hoax que inspirou o estudo.

Algumas das manchetes, de até mesmo alguns portais de boa reputação como o The Guardian, incluem “‘Selfitis’ é um distúrbio mental genuíno“, “Você sofre de selfitis?“, “Compulsão por tirar selfies é um distúrbio mental“, “Tirar selfies de maneira obsessiva é um real distúrbio mental chamado ‘Selfitis“, “Compulsão por ‘selfie’ pode ser um distúrbio mental, diz estudo” e “Selfite: obsessão por selfies é considerada distúrbio mental“.

O problema com todas estas manchetes e artigos é que a classificação de distúrbio mental não surge de apenas uma pesquisa – e nem mesmo os autores do estudo afirmaram ter identificado um novo distúrbio mental.

“Nosso estudo e comunicado à imprensa nunca disse que ‘selfitis’ era um distúrbio mental”, disse Mark Griffiths, autor do estudo e psicólogo da Universidade Nottingham Trent no Reino Unido, por email ao Gizmodo. “Apesar do estudo ter sido coberto em mais de 200 histórias pelo mundo, nenhum jornalista me entrevistou sobre o tópico”.

Em 2014, alguns portais, incluindo o Yahoo News, abordaram uma história do The Adobo Chronicles que reportava como a Associação Americana de Psiquiatria havia recentemente classificado “selfitis” como um novo distúrbio mental após a reunião anual da mesa diretora. O artigo definia a condição como “desejo compulsivo obsessivo de tirar fotos de si mesmo e postá-las em redes sociais como uma forma de lidar com a falta de autoestima e suprir a falta de intimidade”. Além de gritantes irregularidades – a Associação Americana de Psiquiatria se encontra mais de uma vez ao ano e não é desta maneira que eles adicionam novos diagnósticos – o The Adobo Chronicles é um site de sátiras, que já fez manchetes como: Congressista Paul Ryan: Não, Eu Não Transei Com Um Coroinha!

A história fictícia descrevia três níveis de obsessão por selfies: borderline, aguda e crônica. Os viciados em selfies borderline tiram três fotos deles mesmos por dia mas não as postam nas redes sociais, enquanto os “sofredores” crônicos têm um incontrolável desejo de tirar selfies a todo momento, postando seis ou mais fotografias por dia nas redes.

Anos depois, Griffiths e seu coautor, Janarthanan Balakrishnan da Escola de Gerenciamento Thiagarajar na Índia, decidiram conduzir um estudo real baseado no hoax. A pesquisa foi publicada em novembro.

Por grupos de foco, os pesquisadores entrevistaram mais de 200 universitários na Índia, um país com mais usuários do Facebook que qualquer outro lugar, sobre seus hábitos com selfies. Eles queriam descobrir se era possível agrupar as pessoas dentro das três categorias descritas no artigo satírico.

De maneira não muito surpreendente, eles descobriram que dois terços dos estudantes se enquadravam em uma das três categorias. Eles também perguntaram porque eles faziam estes registros, e agruparam as respostas em seis amplas razões, desde querer competir socialmente com os amigos (“Me sinto perdido quando meus amigos recebem mais curtidas e comentários em suas selfies do que eu”, disse um dos participantes) até a uma razão mais elegante (“Tirar selfies em um ambiente especifico me ajuda a lembrar do momento por um bom tempo”, disse outro).

Por fim, eles questionaram um grande grupo de tiradores de selfie e descobriram que quanto mais eles gostavam de tirar selfies, mais eles se sentiam motivados pelos seis fatores. Isso sugere, escrevem os autores, que existe algo que podemos chamar de “selfitis” que pode ser facilmente diagnosticado usando a escala desenvolvida por eles.

É interessante, claro, mas os autores admitem, que este é apenas um estudo “exploratório” que poderia iniciar mais pesquisas sobre o conceito. O estudo absolutamente não prova que tirar selfies é uma doença mental. O que, de novo, nem mesmo os autores afirmam.

Ainda acho que Griffiths e seu coautor exageram ao chamar “selfitis” de condição. Enquanto tirar selfies de maneira obsessiva foi de fato associado com alguns traços nocivos no estudo, como baixa autoestima e querer muita atenção, isso não necessariamente significa que é válido associar um termo psicológico especifico para descrevê-lo. E conforme escrevem os autores, diferente de um distúrbio mental estabilizado como a depressão, tirar selfies pode providenciar muitas emoções positivas e recompensas sociais.

Caso você ainda não esteja convencido que selfitis é uma história falsa, apenas pergunte a Associação Americana de Psiquiatria. Ela tem uma pagina dedicada para desmentir o hoax.

 

Fonte: Gizmodo

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