Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 22 de Setembro de 2019

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Pe. Kurian Melayathu Joseph

Por: Pe. Kurian Melayathu Joseph

Jesus de Nazaré, a Boa Nova para o século 21 (29)

Divulgação Jesus na Galileia

A missão de Jesus em Galileia encerra-se

Os evangelhos sinóticos (Mt, Mc e Lc) dividem a vida pública de Jesus em duas partes; a primeira, em Galileia e a segunda em Jerusalém. Nós nos baseamos no Evangelho de Marcos para apresentar Jesus de Nazaré como a Boa Notícia para o século 21. Agora a nossa leitura vai passar para a segunda parte. Em Mc essa “passagem” acontece no capítulo 8. A primeira parte deste capítulo (vv.1-26) é como o encerramento do ministério de Jesus na região de Galileia.

Este texto pode ser dividido em quatro blocos: o primeiro fala de uma segunda multiplicação dos pães (cf. Mc 8,1-10; Mt 15,32-39); o segundo conta da insistência dos fariseus por um milagre “vindo do céu” que legitimaria a autoridade com a qual Jesus de Nazaré agia (cf. Mc 8,11-13; Mt 16,1-4); no terceiro o Nazareno adeverte seus discípulos sobre o “fermento” dos fariseus (cf. Mc 8,14-21; Mt 16,5-12); e por fim, a cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26).

Numa ocasião anterior, quando se tratava da multiplicação dos pães como um dos componentes principais do Reino de Deus que Jesus de Nazaré anunciava, havíamos mencionado a segunda multiplicação dos pães encontrados em Marcos e Mateus. Contudo, é necessário comentar de novo sobre este milagre, visto que: 1) o milagre assinala a preocupação de Jesus quanto às necessidades básicas da gente que o segue; 2) como já vimos Jesus vive numa situação tensa em que as autoridades estão perseguindo-o; 3) mesmo depois de acompanha-lo de perto, seus discípulos não compreendem as implicações da sua práxis. Em face de tudo isso Jesus não se desvia do seu objetivo de anunciar o Reino de Deus, que é uma vida digna para todos.

Ambos os textos, o de Marcos e o de Mateus, que falam da segunda multiplicação dos pães têm conteúdo semelhante. Jesus age movido por compaixão, alimenta quatro mil homens (sem contar as mulheres e as crianças) de maneira desafiadora ao sistema mercantilista em vigor. Seus perseguidores, os fariseus e seus colaboradores, faziam questão de zelar pela manutenção deste sistema que assegurava seus privilégios. O método de Jesus foi além do comércio capitalista tradicional; considerado impraticável naquele contexto, e mostrou que há uma alternativa: a partilha solidária que implica uma nova organização social que não se fundamenta na capacidade de alguns poucos acumularem tudo, deixando os muitos outros na carência. Levar em consideração a necessidade de cada um é o critério dessa nova organização social. 

Logo em seguida os fariseus exigem que o Nazareno realizasse um milagre “vindo do céu” (cf. Mc 8,11-13; Mt 16,1-4), para comprovar a autorização da sua práxis. Enquanto o texto de Mc fala de Jesus que, exasperado com a incredulidade deles foi embora, Mateus tem mais detalhes. As autoridades são implacáveis na sua insistência de que o Nazareno tem que se enquadrar nos parâmetros definidos por eles, antes que o aceitassem como um autorizado na sua práxis libertadora. Jesus elogia a capacidade humana normal de ler os sinais dos tempos e agir conforme a necessidade. Entretanto ele fica admirado com a inépcia e a insensibilidade desses supostos peritos nas Sagradas Escrituras a reconhecer ação divina na história humana. Jesus sugere o sinal de Jonas a eles para um entendimento da sua atuação e foi embora.

No terceiro bloco (Mc 8,14-21; Mt 16,5-12) Jesus e seus discípulos estão na barca indo para o outro lado. Ele começa adverti-los contra “o fermento” dos fariseus. A reação dos discípulos é tipicamente a daqueles que fazem leitura fundamentalista das Sagradas Escrituras. De acordo com Marcos eles imaginavam que Jesus falava de pães porque havia apenas um pão no barco; de acordo com Mateus, foi porque eles tinham esquecido levar pão. Jesus fez uma dispendiosa hermenêutica para mostrar a eles a necessidade de ficar longe dos ensinamentos farisaicos das autoridades. No entanto, o texto de Marcos termina com a pergunta, que não deixa de ser enigmática, de Jesus: “E vocês ainda não compreenderam?”

O próximo episódio, a cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26) é peculiar de Marcos. Este vai figurar em nossas discussões mais adiante. O que aconteceu foi o seguinte: ao chegar Jesus em Betsaida, levaram um cego a ele pedindo que tocasse nele. Jesus, por sua parte levou o pela mão para fora do povoado, realizou alguns ritos que de modo gradativo restaurou sua capacidade de enxergar perfeitamente. Jesus o mandou para sua casa recomendando que não entrasse no vilarejo, onde ele ficava em condições de cegueira.

Mesmo no meio da perseguição mortal, crescente incompreensão dos mais próximos, a rejeição pelos incomodados por sua práxis libertadora, Jesus de Nazaré continua inabalável no seu propósito de anunciar o Reino de Deus. Aconselha aos beneficiários do Reino a não voltarem às circunstâncias que lhes roubam elementos necessários da vida em sua plenitude (cf. Mc 8,26).

Aqui surge uma pergunta que não quer se calar: no retrocesso sócio-político-econômico-religioso, o que está acontecendo em nosso país não é justamente a volta aos tempos de obscurantismo, justamente o que Jesus pediu o curado de Betsaida evitar?

Pe. Kurian

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