Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 15 de Outubro de 2019

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Pe. Kurian Melayathu Joseph

Por: Pe. Kurian Melayathu Joseph

Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (34)

Reprodução Jesus Cristo  MESTRE ASCENSO E INSTRUTOR DO MUNDO

O terceiro anúncio da Paixão (2)

Nós já examinamos uma parte dos textos que falam do horizonte dentro do qual Jesus faz o terceiro anúncio da sua Paixão. Hoje, propomos completar a leitura dos demais episódios que compõem este cenário: o Reino de Deus e as crianças; o homem rico; a pergunta de Pedro sobre a recompensa merecida pelas renúncias em prol do Reino e por fim examinar o próprio anúncio e a cura do(s) cego(s) de Jericó que ironicamente encerra o bloco dos textos do anúncio da Paixão.

No âmbito de descrença, discórdia e contestação, falando da qual nós encerramos o último capítulo, Jesus em Marcos afirma que o Reino de Deus é das crianças (cf. Mc 10,13-17). Isto porque no meio da multidão que rodeava Jesus, havia pessoas que procuravam levar as crianças até ele, para que ele tocasse nelas, mas, os discípulos foram frustrando essa demanda, o que deixou Jesus indignado. O Nazareno deixa claro que o Reino pertence às crianças e que só elas vão entrar no Reino. Aqui, vale lembrar que criança era uma das categorias de pessoas não valorizadas naquele tempo. E o Reino é justamente para quem não é valorizado.

O texto de Mateus (19,13-15) tem os mesmos detalhes ao falar do Reino e as crianças, com o acréscimo de orientações para o exercício da autoridade no Reino de Deus, a nova comunidade humana em construção na práxis de Jesus de Nazaré. Enquanto isso, o texto de Lucas (18,15-17) enfatiza a necessidade de receber o Reino de Deus como uma criança para poder entrar nele.

Em seguida vem o episódio do homem rico (Mc 10,17-22). Este correu até Jesus, se ajoelhou e pediu orientações para alcançar a vida eterna. Era um homem piedoso e observava as práticas tradicionais sem falhas desde sua juventude. No entanto, Jesus o mostra que para ingressar na vida, não bastam só piedade e observâncias, precisa de algo mais, isto é, comprometer se à prática da justiça e que a partilha seja a norma. Concretamente isto significa vender tudo o que ele possuía, doar o dinheiro aos pobres e depois vir entrar no caminho do Reino. Porém, o homem escolheu se afastar de Jesus, pois tinha muitos bens! Fica claro neste episódio que a sedução das riquezas é obstáculo intransponível no caminho para se tornar discípulo de Jesus de Nazaré.

O episódio do homem rico no Evangelho de Mateus (19,16-30) tem os mesmos detalhes que Marcos tem. Aqui é ilustrativo citar a nota de rodapé da Nova Bíblia Pastoral: “O próprio julgamento da história terá como critério o empenho por a nova ordem social, e um novo modo de tratar os bens que a criação divina põe à disposição dos seres humanos.” Isto para explicitar as implicações socio-político-econômicas do Reino como realidade terrestre. Por sua parte, Lucas conta a história do homem rico sem diferença notável nos detalhes dos outros evangelhos sinóticos (cf. Lc 18,18-22).

Em seguida, vem o discurso sobre as exigências para entrar no Reino de Deus (cf. Mc 10,23-27). Percebendo a dificuldade de os discípulos compreenderem a novidade que nascia para a humanidade na sua práxis, Jesus usa a metáfora do camelo passar pelo vão de agulha para exemplificar tal dificuldade. É que as consciências dos seus seguidores estão marcadas pela mentalidade dominante. Isto os deixou mais admirados e perguntaram a Jesus sobre quem poderia entrar no Reino de Deus. Neste momento Jesus assegura-os que “entrar no Reino de Deus” é um dom de Deus e não fruto de esforço humano apenas.

O texto de Mateus que fala das exigências para entrar no Reino de Deus, na situação em que o homem rico se afastou de Jesus por não querer se desapegar dos seus muitos bens, tem o mesmo esquema do texto de Marcos. Em Lucas (18,24-27) Jesus dirige suas palavras ao homem rico que tinha ficado triste ao saber das exigências para entrar no Reino de Deus.

Nesta ocasião Pedro interpela Jesus sobre a recompensa que aqueles que renunciam tudo pelo Reino de Deus receberiam (Mc 10, 28-31). É que a mentalidade dominante é o que prevalece mesmo nos discípulos ainda. Jesus alerta: quem assumir o caminho apontado por ele precisa saber que perseguições o aguardam; e deve sinalizar com seu testemunho que outra sociedade, com novas relações, é possível. Há uma indicação da inversão dos valores no Reino: “Muitos dos primeiros serão os últimos, e os últimos serão os primeiros” (Mc 10,31).

O texto de Mateus que fala da recompensa que aguarda aqueles que optam pelo Reino (Mt 19,27-30) segue verbatim o de Marcos. Lucas (18,28-30) tem algo diferente para reportar: “... Não há ninguém que tenha deixado casa, mulher, irmãos, pais ou filhos por causa do Reino de Deus, que não receba muito mais neste tempo, e no futuro a vida eterna” (vv.29-30).

Agora que vem o terceiro anúncio da Paixão (Mc 10,32-45). O texto pode ser dividido em três partes para apreciar melhor seu conteúdo. Na primeira parte, isto é, vv.32-34 Jesus comunica aos seus discípulos, que junto com ele subiam para Jerusalém, assustados e com medo, o que o esperava na sede de poder central. É um confronto mortal, mas a ressurreição no terceiro dia e não a morte que vai coroar o momento de conflito com os poderosos.

Contudo, na segunda parte, o pedido de Tiago e João (vv.35-40) para ocupar os lugares principais na estrutura de poder enfatiza a incompreensão, ou melhor, a dificuldade de os discípulos sair da mentalidade dominante e entrar na dinâmica do Reino. Estes dois, que representam as expectativas normais humanas de tirar vantagens num mundo organizado no princípio de “quid pro quo” (algo para algo), agiram com intuito de assegurar o melhor para si. O Nazareno não cede seu pedido.

Na terceira parte deste texto (vv.41-45) nos informa da confusão que os filhos de Zebedeu causaram com seu pedido para ocupar os melhores lugares na hierarquia do Reino que Jesus estabeleceria em Jerusalém, conforme as expectativas dos discípulos. Jesus aproveita do momento para reafirmar a novidade da maneira do exercício do poder no Reino. No v.45 Rabino Jesus deixa bem claro que a comunidade que ele veio formar não pode reproduzir os esquemas de violência e opressão utilizados pelos dominadores. Sua marca tem de ser o serviço desinteressado aos outros.

O texto de Mateus que fala do terceiro anúncio da Paixão (Mt 20,17-28) é semelhante ao de Marcos, com uma diferença. É a mãe dos filhos de Zebedeu que faz pressão junto a Jesus para que seus filhos ocupassem os lugares principais na hierarquia do Reino de Deus que Jesus estabeleceria em Jerusalém. No breve texto de Lucas (Lc 18,31-34) nem se fala do pedido de João e Tiago ou a reação dos outros discípulos. O autor simplesmente afirma: “Eles não entenderam nada. Essa palavra era obscura para eles e não compreendiam o que Jesus dizia” (v34).

Depois do percurso longo que fizemos para examinar os três anúncios da Paixão na complexidade do seu horizonte passamos para o episódio que se encontra logo em seguida. Todos os três evangelhos sinóticos falam da cura do(s) cego(s) de Jericó (cf. Mc 10,46-52; Mt 20,29-34; Lc 18,35-43). Em Marcos e Lucas há um cego, cada um, sentado “a beira” do caminho que ao final segue Jesus “no caminho” naquele momento em que ele chegava a Jerusalém para seu confronto final com os poderes aí estabelecidos. Em Mateus são dois os cegos que estão à beira do caminho por causa da marginalização e pobreza que sofrem. A cura que Jesus os proporcionou, movido por solidariedade se expressa pelo compromisso, o toque os converte em discípulos.

Em conclusão, é conveniente recordar que Marcos moldura os três anúncios de Paixão com duas curas de cegos; no início do bloco dos textos (cf. Mc 8,22-26) e no final (cf. Mc 10,46-52). No intervalo há algo que se destaca: a crescente dificuldade dos discípulos para compreender as implicações de fazer parte do Reino de Deus, pois têm expectativas convencionais daqueles que fazem parte de qualquer movimento social, as de receber recompensa adequada. A recompensa que Jesus promete vai mais além do que se esperava. Ironicamente, só depois da ressurreição é que começam a compreender a radical novidade envolvida no tornar-se discípulo do rabino itinerante de Nazaré (cf. Mc 9,2-13; Mt 17,1-13; Lc 9,28-36).

Pe.Kurian

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