Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 22 de Setembro de 2019

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Pe. Kurian Melayathu Joseph

Por: Pe. Kurian Melayathu Joseph

Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (33)

Sementes da Paixão Terceiro anúncio da Paixão

O terceiro anúncio da Paixão

O Evangelho de Marcos tem uma maneira própria de salientar sua intenção teológica. Para demonstrar tal intenção vimos examinando os três anúncios da Paixão como um só bloco de texto (Mc 8,22-10,52). Deu para percebermos que este bloco contém, além dos anúncios de Paixão, episódios relevantes para fundamentar sua teologia. Contudo, no intervalo desses vaticínios, há trechos que falam: de um lado, a procura crescente de Jesus pelos marginalizados e necessitados; e de outro, a teimosia manifesta da parte dos seus colaboradores a abandonar sua compreensão convencional de “messias” (glorioso) para poder captar a radical novidade que a práxis inusitada de Jesus de Nazaré revela, isto é, entregar sua própria vida em vez de praticar maior brutalidade e violência para se proteger.

Após analisar os primeiros dois anúncios e os incidentes no intervalo, aqui nós faremos a leitura dos textos que encontramos que precedem o terceiro anúncio da Paixão. Estes textos mostram como os discípulos, de fato, estão bem longe de aceitar o caminho que o Nazareno propôs. Mas antes de analisar o texto que trata de anúncio, nós vamos examinar os episódios que Marcos insere antes do texto de anúncio, pois nós nos baseamos no Evangelho de Marcos para o anúncio de Jesus de Nazaré como a Boa Notícia para o século 21.

No primeiro episódio narrado por Mc depois do segundo anúncio de Paixão (Mc 9,38-41; Lc 49-50), o discípulo João conta de alguém que expulsava demônios em nome de Jesus, sem pertencer ao grupo dos discípulos. Bem por isso ele foi proibido pelos discípulos para continuar esse trabalho. Surpreendente, Jesus não aprovou deste gesto de encurralar atuação em seu nome a uma determinada organização. Entretanto, já temos aqui os inícios de uma doutrina posteriormente articulada:“fora da igreja não salvação” que ainda hoje, na sua aplicação negativa e parcial, procura domesticar o projeto de Deus dentro de determinadas estruturas, que necessariamente sofrem delimitações territoriais e temporais. As palavras de Jesus em resposta a João (Mc 9,39-41; Lc 9,50) deixam bem claro que Jesus não aceita que alguém monopolize nem sua pessoa e muito menos a sua missão. Quem está comprometido com os ideais propostas do seu projeto está no caminho de ser seu verdadeiro discípulo.

O momento de mudanças que vivemos (2019) exige dos discípulos de Jesus toda atenção no trabalho de discernimento dado que as forças do bem e do mal estão num combate decisivo para determinar a próxima fase civilizatória humana. Como sempre, sentimentos religiosos estão sendo manipulados sem escrúpulos para alcançar objetivos nefastos. Uma nova etapa da escravidão, para a maioria da raça humana, está sendo imposta pelo regime neoliberal neocolonial que o império impõe com toda força sua disposição. Discernir quem está no lado de Jesus e descobrir como nos posicionar no lado de Jesus são necessidades urgentes.

A igreja Católica vive momentos de questionamento de doutrinas e disciplinas tradicionais, por motivo das falhas que ganham visibilidade nesta época da revolução comunicacional democrática. Entretanto O texto de Mc 9,42-50 que fala do escândalo e o sal (cf. Mt 18,6-9; Lc 17,1-2) mostra que a comunidade dos seguidores de Jesus nunca foi uma associação dos perfeitos nem dos puros. A perda da consciência de ser ‘sal’, o elemento catalisador na comunidade humana, também não é incomum na experiência cristã. O importante é ficar atento aos pequenos, fracos e fragilizados e orientar as ações a partir do que essa parte da comunidade humana necessita.

Agora Jesus de Nazaré enfrenta mais um momento de prova nas mãos dos fariseus diante de uma grande multidão. Os fariseus lhe perguntam sobre a questão e divórcio, um privilégio especial que a Lei de Moisés conferia ao marido (Mc 10,1-12; Mt 19.1-12). Por sua parte o Nazareno recorre a Gn 2,24 para recuperar a radical igualdade entre as mulheres e os homens, assim eliminando a posição privilegiada que a sociedade patriarcal atribuía aos homens. De acordo com rabino Jesus, essa era uma concessão que Moisés, o legislador, fez diante da manifesta dureza do coração masculino. Entrementes é necessário notar que o texto de Mc (10,12) aponta para a possibilidade de mulher divorciar também.

Jesus aproveita o momento para destacar a complementariedade do feminino e do masculino que deve evoluir dentro do casamento com tempo até os dois chegarem a ser “uma só carne”. O texto em Mc,10,9 aponta para a valorização da fidelidade conjugal que as comunidades primitivas procuravam perpetrar. Nessa conjuntura, diante da situação que parecia quase impossível, da durabilidade do matrimônio, de acordo com o texto de Mateus, abre-se a possibilidade da opção celibatária pelo Reino de Deus (cf. Mt 19,10-12). O importante, nessa discussão de Jesus e os discípulos, é a natureza opcional dessa escolha: “Quem puder compreender, compreenda”.

Ao examinar estes textos de Marcos, fica claro que o contexto do anúncio da paixão que Jesus faz está num horizonte de descrença, discórdia e contestação. Examinaremos ainda mais textos para compreender melhor a consciência que cresce na mente do próprio Jesus do seu fim trágico.

Pe. Kurian.

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