Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 26 de Abril de 2019

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Pe. Kurian Melayathu Joseph

Por: Pe. Kurian Melayathu Joseph

Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (31)

Divulgação Parábolas de Jesus
Parábolas de Jesus

Jesus a caminho para Jerusalém

O evangelho de Marcos é um documento programático. O leitor tem percebido que o autor nos conta das atividades de Jesus de Nazaré na primeira parte da sua obra e na segunda ele nos conta das consequências da sua práxis a fim de beneficiar a comunidade da fé, que inclui aqueles que seguiram o Nazareno desde o primeiro século até os nossos dias. Conhecer Jesus é importante; que este conhecimento leve a um compromisso com a sua causa, isto é, a instauração do Reino de Deus num mundo que com muita facilidade o rejeita é mais importante ainda.

Vimos logo no início do Evangelho de Marcos um bloco de textos (Mc 1,40-3,6) estruturado para narrar alguns milagres, entre outros, que rabino Jesus realizou. Os beneficiários destes milagres ficaram maravilhados e louvavam a Deus pela força restauradora vindo do próprio Deus na pessoa do Nazareno. Ao mesmo tempo as elites poderosas, aliados dos imperialistas romanos, que fiscalizavam e criminalizavam qualquer movimento popular de libertação, decidiram matar Jesus e iniciaram articular um programa para executar seu plano nefasto “na forma da lei”. Isto porque as implicações das transformações que a práxis de Jesus provocava ameaçavam seu status de privilegiados do sistema vigente.

Na segunda parte do seu Evangelho Marcos narra a subida de Jesus a Jerusalém usando uma técnica literária chamada de “inclusão”. Este seu deslocamento de Galileia a Jerusalém acontece entre as duas curas de cegos (cf. Mc 8,22-26 e 10,46-52). A primeira, a cura do cego de Betsaida, é um episódio peculiar a Marcos. O Evangelho não nos informa o nome do curado; ele é levado a Jesus pelos outros; Jesus o leva para longe, realiza alguns ritos e ele recupera sua vista gradativamente. Uma vez curado, Jesus despede-o com a injunção de não voltar para a situação anterior (“Não entre no vilarejo”), em que ele ficava sem poder enxergar.

 A segunda, a do cego de Jericó (Mc 10,46-52) tem detalhes diferentes. O cego tem nome (Bartimeu); ele mesmo percebe a presença de Jesus e pede socorro usando um dos títulos Cristológicos mais importantes: “Filho de Davi”. Os que estavam ao seu redor procuram calá-lo, diferente daqueles da cura do cego de Betsaida, que tinham intercedido por ele. Depois da sua cura, Bartimeu “seguiu a Jesus no caminho”. Vale lembrar que durante muito tempo os seguidores de Jesus eram conhecidos como aqueles que seguiam “O Caminho”, antes de receber o nome “cristãos” (cf. At 11,26).

Entre essas duas curas dos cegos nós temos três anúncios da sua paixão que Jesus de Nazaré faz (cf. Mc 8,30-38; 9,9,30-31; 10,32-34). Ironicamente, cada anúncio produz “cegueira” crescente nos discípulos quanto a caminho que Jesus de Nazaré propõe seguir na sua missão de instaurar o Reino de Deus, como veremos em breve ao analisar os textos (cf. Mc 8,32-33; 9,33-38; 10.35-45.

Para começar analisar os textos: o primeiro anúncio da paixão (Mc 8,34-38 cf. Mt 16,24-28; e Lc 9,23-27) é precedido pela profissão da fé de Pedro (Mc 8,27-33; cf. Mt 16,13-23; e Lc 9,18-22). Jesus está na região de Cesareia de Filipe, depois que ele advertiu seus discípulos para se protegerem do “fermento dos fariseus”.

Ele indaga aos seus, que tinham voltado da sua missão aos vilarejos da Galileia, sobre o que se dizia nos povoados a seu respeito. Eles reportaram que alguns consideravam o rabino de Nazaré João Batista ressuscitado (Herodes); para outros seria Elias, Jeremias ou um dos profetas dos tempos antigos.

Aqui Jesus quer saber o que os seus próprios discípulos pensavam sobre sua identidade. Na boca de Pedro temos a profissão da fé das comunidades primitivas: “Tu és o Messias”. Jesus elogia Pedro pela sua abertura à revelação divina. No Evangelho de Mateus percebemos uma virada eclesiológica desta profissão da fé, pois ela é o fundamento da comunidade que o Nazareno está formando (cf. Mt 16,17-19).

Jesus começa ensinar sobre o caminho paradoxal que ele tinha escolhido; o anúncio e a instauração do Reino de Deus não seguirão a rota que os empreendimentos dos poderosos deste mundo segue normalmente. Enquanto estes alcançam suas metas usando força maior para aniquilar seus adversários e superar obstáculos no caminho, o “Filho do Homem” vai entregar sua vida em face de oposição brutal: perseguição, morte na cruz e ressurreição.

Pedro não se conforme com tal escolha tão inconvencional.  Inconformado, ele repreende Jesus. Na hora, Jesus o censura pela sua falta de compreensão da radical novidade que Deus realiza na história humana em sua própria pessoa. É neste momento que o Nazareno faz o primeiro anúncio da sua paixão a multidão e aos seus discípulos. O Reino de Deus concretiza-se neste mundo, quando tem que se nega, toma sua cruz, entrega sua vida por causa de Jesus e do Evangelho, a novidade que outro mundo é possível.  

Pe. Kurian.

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