Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 22 de Setembro de 2019

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Pe. Kurian Melayathu Joseph

Por: Pe. Kurian Melayathu Joseph

Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (27)

Divulgação Evangelho de Marcos

É necessário separar a Palavra de Deus das tradições humanas

Após fazer uma leitura dos milagres da multiplicação dos pães e de Jesus caminhar sobre as águas, com o intuito de considerá-los como componentes importantes da proposta igualitária do Reino de Deus em oposição ao capitalismo meritocrático neoliberal, nós vamos analisar como o profeta de Nazaré educa separar a Palavra de Deus das tradições humanas. Os textos em consideração estão em Mc 7,1-23 e em Mt 15,-20.

Jesus de Nazaré já se tornara uma celebridade. Entretanto as autoridades tinham decidido a mata-lo (cf. Mc 3,6), pois sua práxis que agradava tanto as camadas mais baixas da sociedade Palestinense ameaçava os fundamentos do sistema tradicional que assegurava os privilégios das elites. Por isso vigiavam-no assiduamente. O politicamente correto era eliminá-lo “na forma da lei” e a reação popular gerada seria calculável. Em vista disso os fariseus e seus doutores da Lei, insistentes no cumprimento assíduo das leis e a observação dos costumes tradicionais, acompanhavam este instaurador itinerante do Reino de Deus para fiscalizá-lo de mais perto.

Estes notaram que alguns discípulos de Jesus comia pão sem lavar as mãos, primeiro. Aqui é necessário dizer que o autor de Mc faz questão de explicar as leis da pureza em alguns detalhes (cf. Mc 7,3-4). As autoridades questionaram o próprio Jesus sobre essa omissão da parte dos seus discípulos, quer dizer, por que eles comiam pão sem observar os procedimentos da lei da pureza, como foram regulados pelos antigos.

A hipocrisia e a malícia atrás desse questionamento das elites poderosas não escapou a atenção de Jesus. Por isso ele citou Is 29,13 para condenar seu abandono do mandamento de Deus e o apego hipócrita à tradição dos homens. O Nazareno usa da sua prática, não incomum daqueles dias, de invalidar o quarto mandamento do decálogo: honrar seu pai e a sua mãe, e lucrar com isso. Lembrando-se de que é costume imemorial cuidar do pai e da mãe na sua velhice, porém quem quisesse nulificar o quarto mandamento, declararia o que poderia ser usado pela sua manutenção é “Corban”, isto é, oferta sagrada. Oferta sagrada vai para o templo. Neste jogo fariseu de substituir o mandamento de Deus por tradição humana, quem lucrava eram os componentes do sistema centrado no templo.

Depois disso Jesus dirige suas palavras à multidão sobre a questão das leis de pureza. O que entra no ser humano de fora não o faz impuro, mas o que sai dele é o que o torna impuro. Aqui se repete a advertência: “Quem tem ouvidos, ouça!” (Mc 7,16). De acordo com alguns estudiosos, esta poderia ter sido uma inserção posterior por algum copista (escriba que fez cópias do texto). Portanto essa admoestação que nós já encontramos em Mc 4,23 refere à consciência que as comunidades primitivas tinham da necessidade de ser comprometidos com a causa do Reino para poder seguir nas pegadas de Jesus.

Mais tarde os discípulos recebem maiores esclarecimentos sobre a parábola quando fizeram perguntas a Jesus. O texto de Marcos sinaliza aqui a superação nas comunidades cristãs dos regulamentos judaicos que proibiam certos alimentos (Mc 7,19). O texto de Mt conta dos discípulos que informaram Jesus que ele escandalizava os fariseus com as novidades que ele pregava. Neste momento Jesus os incentiva  separar-se dos fariseus, pois estes não serviam mais a causa do Reino (cf. Mt 15,12-14). De fato, no Evangelho se Mateus nós temos os sete “ais” contra os fariseus e letrados/escribas (cf. Mt 23,13-36). Nestes Jesus condena os líderes religiosos que modificam a religião em mecanismo de opressão e controle das pessoas, absolutizando o que é secundário e deixando de lado o que é essencial: a prática da justiça e da misericórdia. Pior ainda, em nome de sua religião, eles chegam a matar os enviados de Deus, como ajudarão a fazer com o próprio Jesus.

Voltando para o capítulo de 15 de Mateus, Pedro pede ainda maiores esclarecimentos sobre a parábola (cf. Mt 15,15). Jesus desaprova a manifesta resistência que até mesmo seus colaboradores mais próximos têm para consentir-se com as implicações da proximidade do Reino de Deus. Em seguida há uma lista do que vem do interior do ser humano e o torna impuro (cf. Mc 7,21-23; Mt 15,29-20). Essa lista mostra que as comunidades primitivas tinham a consciência das implicações morais da fé em Jesus na vida dos seus seguidores.

FELIZ NATAL E UM ABENÇOADO ANO NOVO 2019 AOS NOSSOS LEITORES!

Pe. Kurian

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