Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 25 de Junho de 2019

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Pe. Kurian Melayathu Joseph

Por: Pe. Kurian Melayathu Joseph

Jesus de Nazaré, a Boa Notícia para o século 21 (26)

Divulgação Jesus caminhar sobre ás águas

Multiplicar os pães e caminhar sobre as águas (3)

Acabamos de examinar os quatro textos que falam do milagre de multiplicação dos pães nos quatro evangelhos; agora restou-nos a fazer uma leitura dos dois textos nos evangelhos de Marcos e Mateus que reportam uma segunda multiplicação dos pães. Em seguida propomos tirar algumas conclusões oriundas dessa nossa leitura de todos esses textos para indicar pistas para uma compreensão das implicações políticas da nossa leitura dentro do horizonte da mudança das épocas que vivemos.

7. Os textos que narram a segunda multiplicação dos pães se encontram em Mc 8,1-10 e Mt 15,32-39. De acordo com o Evangelho de Marcos este segundo milagre se realiza no território pagão. Nestes dois textos não há nenhum detalhe novo que nós não vimos nas quatro narrativas examinadas até agora. Resumindo as narrativas: há uma situação de carência; Jesus, movido pela compaixão age para resolver a situação. Como nas narrativas anteriores, os discípulos são seus colaboradores no trabalho de constatar a inviabilidade de aplicar a solução comum capitalista comercial tradicional. Depois, a seu pedido, eles organizam o povo (a sentar-se em pequenos grupos) para distribuir o pão “eucaristizado”, de acordo com a necessidade de cada um, evitando que alguém acumule além do necessário. Todos comeram e ficaram satisfeitos. A sobra, uma quantia considerável, não é desperdiçada, mas é recolhida. Neste momento Jesus se afasta dos seus discípulos e da multidão.

8. Já no início do nosso exame deste bloco de textos sobre o milagre da multiplicação dos pães comentamos que este “milagre” refere à preocupação que Jesus de Nazaré tinha sobre o como suprir as necessidades básicas da população Palestinense, vítimas do capitalismo selvagem que o império romano impunha nessas terras impiedosamente através dos seus mercenários, os notáveis e os cidadãos de bem, locais.

Vale lembrar de que Jesus depois de ser batizado no Rio Jordão por João Batista foi tentado no deserto (cf. Mc 1,12-13). Os evangelhos de Mateus e Lucas têm alguns detalhes das tentações. A tentação de matar a fome, de qualquer maneira, é a primeira que o rabino de Nazaré enfrentou. Ele recusou desviar-se do foco da sua missão de instaurar o Reino de Deus, isto é, efetuar mudanças sociais e politicas radicais recorrendo a meros paliativos dentro do sistema vigente, como sugeria o tentador. O Nazareno recorreu às Sagradas Escrituras para sustentar sua posição.

Diante da necessidade de alimentar a multidão num lugar afastado Jesus e seus discípulos analisam as opções; o jeito capitalista comercial tradicional de comprar foi descartado como solução inviável; a alternativa do jeito fraterno, solidário e igualitário vai ser testada; para isso a reorganização social é necessária. Esta e atarefa da distribuição dos pães e peixes, após a realização do gesto eucarístico ficaram por conta dos discípulos. Entretanto, está claro  a necessidade da articulação das ideologias político-econômicas que se baseiam nos valores do Reino de Deus na realização deste projeto na história.

Das narrativas acima examinadas vimos que o critério usado na reorganização da multidão sentar-se em grupos pequenos foi: que cada um recebesse o que precisava e evitar os mais ágeis se apossasse de tudo, deixando os outros desprovidos. É muito contrário ao que está acontecendo em nosso mundo atual de abundância, submetido a crescente dominação dos gananciosos que energiza a onda neoliberal pós-colonial. As experiências “comunistas” e “socialistas”, tão bem criminalizadas na propaganda imperialista neoliberal, têm que ser avaliadas desta perspectiva e aperfeiçoadas com novas experiências ainda.

O gesto eucarístico que todos os seis textos aduzem aponta para a missão das comunidades que celebram a Eucaristia hoje de serem os agentes dessa transformação social gerando o modo fraterno, solidário e igualitário de usufruir os recursos abundantes da terra mãe à disposição da toda a humanidade.

Aqui vale lembrar-se das poucas experiências que as comunidades primitivas realizaram nessa direção registradas no Livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 2,42-47; 4,32-35). Para a nossa surpresa logo em seguida aparece a história de Ananias e Zafira que fraudaram essa prática nova e revolucionária (cf. At 5,1-11)! Será que “o modo fraudulento” tem que continuar ser a regra? Não há possibilidade de mudar?

Embora as comunidades dos seguidores de Jesus de Nazaré tivessem sofrido modificações ao longo da sua longa história, para servir até como a religião imperial, experiências para pôr em prática o igualitarismo não faltaram em nenhum momento. Nós mesmos vivemos uma versão original dessa experiência do igualitarismo aqui no Brasil, nas últimas décadas. O aparato governamental tradicional serviu para gerar mobilidade social. É verdade que a elite, não só brasileira, mas globalizada, está aniquilando os fazedores, as lideranças dessa “revolução”, em operações jurídico-midiáticas fraudulentas bem montadas de criminalização com aparente sucesso, por enquanto!

Depois desse breve exame dos textos que narram o milagre de multiplicação dos pães e algumas reflexões práticas, nós vamos examinar o milagre reportado nos evangelhos em seguida: o de Jesus ir ao encontro dos seus discípulos caminhando sobre as águas.

Pe. Kurian.

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