Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 25 de Março de 2019

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Pe. Kurian Melayathu Joseph

Por: Pe. Kurian Melayathu Joseph

Diáconos permanentes na Igreja de Campo Grande-MS

Tereré News Pe. Kurian Melayathu Joseph
Pe. Kurian Melayathu Joseph

Diáconos permanentes na Igreja de Campo Grande-MS

Num futuro próximo a Arquidiocese de Campo Grande-MS deve realizar a ordenação de novos diáconos permanentes. Oferecemos aqui uma reflexão sobre o ofício de diáconos/diaconisas, uma instituição da igreja primitiva que tinha praticamente desaparecido, mas agora volta para uma igreja que procura converter-se de uma “sociedade perfeita” para “uma igreja em saída”.

O que é que o NT diz sobre o diaconato? Os capítulos 6-8 do Livro dos Atos elaboram a origem e o desenvolvimento desta instituição em alguns detalhes focalizando nas atividades de dois dos primeiros sete: Estêvão e Filipe.

Mesmo diante da proibição de falar em nome de Jesus (cf. At 5,40-42) a comunidade dos seguidores de Jesus cresceu de tal maneira que houve falhas na organização de serviços internos o que causou reclamações (cf. At 6,1-6). A saída dessa situação foi arranjar auxiliadores e dividir as tarefas. Os Doze deram início a um processo que ainda continua na Igreja: o de ler os sinais dos tempos e agir de acordo. Instituíram o ofício de mais servidores (diáconos); escolherem sete homens de respeito, repleto de Espírito Santo e de sabedoria, com a participação e anuência da comunidade toda, para o atendimento diário as viúvas e outros necessitados. Foi uma medida que agradou a multidão dos fiéis e liberou os apóstolos para realizar suas tarefas com mais empenho. Na lista dos diáconos que o Livro dos Atos apresenta, já percebemos a diversidade e a diversificação presentes na Igreja desde suas primícias. O primeiro na lista é Estêvão, considerado um homem cheio de Espírito Santo; Nicolau, o último na lista era um gentio de Antioquia que se convertera para a religião judaica. Estes foram apresentados aos apóstolos que rezaram e impuseram as mãos sobre eles.

O versículo em seguida (v.7) nos informa do crescimento e avanço que a Igreja experimentou; até mesmo sacerdotes, em grande número, filiaram-se na nova comunidade. O resto do capítulo (cf. At 6,8-15) nos conta da atuação admirável do Diácono Estêvão no meio do povo, que deu origem a hostilidade da sinagoga “dos Libertos” contra ele. Incapazes de derrotar Estêvão nas disputas, estes recorreram a sua condução coercitiva ao Sinédrio e, numa versão primitiva dos métodos de “fraude-jato” de nossos dias, produziram testemunhas contra o diácono. Estes, subornados para testemunhar contra Estêvão, afirmaram ter ovido-o blasfemar contra Moisés e Deus. Ademais, era, testemunharam os subornados, seu hábito repetir incessantemente que Jesus de Nazaré destruiria o Templo e modificaria os costumes instituídos pelo próprio Moisés.

No capítulo 7 dos Atos nós temos uma releitura Cristocêntrica que diácono Estêvão faz da história da salvação. Nesta interpretação ele encaixa o papel da Lei e do Templo num projeto Cristológico. Ele faz isto como resposta a indagação que o sumo sacerdote lhe fez sobre a veracidade das acusações contra ele. No seu discurso Estêvão começa com o chamado de Abraão que dá início a essa história da salvação, fala da construção do templo, do fim trágico dos profetas que tinham condenado os esquemas nefastos centrados no Templo. O diácono condenou seus algozes por ter repetido esse mesmo comportamento no caso de Jesus de Nazaré, sem deixar de falar da desobediência a Lei dos verdugos do Nazareno. O resultado imediato foi o linchamento do diácono Estêvão. Ao morrer, ele entregou sua vida, da mesma forma que Jesus de Nazaré na sua cruz fez (cf. At 7,1-60).

A execução de Estêvão desencadeou uma perseguição atroz contra a Igreja de Jerusalém (cf, At 8,1) o que, de fato, foi uma bênção disfarçada, pois muitos seguidores de Jesus foram obrigados a fugir de Jerusalém. Aonde chegaram, anunciavam a Boa Nova de Jesus. Entre estes fugitivos é diácono Filipe que chegou a uma das cidades de Samaria (cf. At 8,5). Sua pregação, curas realizadas e exorcismo causaram grande alegria. Entre os convertidos pela atuação do diácono Filipe era Simão o mago. Ele estava sempre com Filipe admirando-se com os grandes prodígios realizados.

Aconteceu que quando a Igreja em Jerusalém ficou sabendo que a Samaria tinha acolhido a Boa Nova de Jesus, enviaram para eles Pedro e João. Estes impuseram as mãos sobre aqueles que foram batizados em Nome de Jesus e os neófitos receberam o Espírito Santo. Simão, o mago, viu o que acontecia; ofereceu dinheiro aos apóstolos para que ele também recebesse tal poder! Pedro falou com ele mostrando a necessidade de ter noções claras sobre as práticas sacramentais da comunidade que seguia o Caminho.

O papel do diácono Filipe no amadurecimento da fé do eunuco etíope é o assunto dos próximos versículos (cf. At 8,26-40). Auxiliado por Deus (um anjo do Senhor falou a Filipe...) o diácono foi ao encontro do etíope, eunuco e alto funcionário de Candace, rainha da Etiópia, um “temente de Deus” que voltava de Jerusalém após prestar o culto. Filipe fez uma admirável catequese Cristocêntrica de um dos “Cânticos do Servo do Senhor” que levou o eunuco pedir o Batismo que o diácono prontamente celebrou. Logo depois, Filipe estava a caminho anunciando a Boa Nova de Jesus em todas as cidades por onde passava, até chegar a Cesareia. Os Atos dos Apóstolos faz mais uma referência a Filipe no Cap. 21,8ss.

Ao longo dos vinte séculos da história o diaconato passou por inúmeras modificações, mas a nossa intenção declarada no início deste artigo era fazer uma reflexão sobre os capítulos seis a oito dos Atos dos Apóstolos, que tratavam dos momentos iniciais deste ministério na Igreja. Fica evidente que a instituição do diaconato era um momento definidor para a Igreja nascente. Temos notícias da participação de toda a comunidade na realização desta ampliação dos ministérios, ação que resultou da leitura apropriada dos sinais dos tempos.

Diácono Estêvão faz uma destemida releitura da história da salvação de um ponto de vista Cristológico e paga por isso com sua vida. Diácono Filipe aproveita a perseguição que seguiu o linchamento do seu colega, levou a Boa Nova de Jesus aos Samaritanos, considerados excluídos pelos judeus. O valor do seu trabalho pioneiro é reconhecido pela Igreja de Jerusalém sinalizada pela visita dos Apóstolos a Samaria ao receber notícias da conversão dos samaritanos. Filipe também foi instrumental da conversão do etíope a quem ele fez uma interpretação Cristocêntrica do AT.

De tudo isso fica claro que a volta do ministério do diácono permanente para a nossa igreja, como algo normal, é um momento definidor, pois os desafios que “uma igreja em saída” enfrenta num mundo “pós-cristã” necessita dos homens e das mulheres de respeito, repletos do Espírito Santo e de sabedoria.

Pe. Kurian.

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