Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 23 de Setembro de 2019

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Rosildo Barcellos

Artigos de Corumbá e região pantaneira.

De Lobivar a Bolivar - Por: Rosildo Barcellos

Rosildo Barcellos Corumbá/MS

Eu sou o poeta desconhecido (...)
Trago comigo, a minha alma presa,
A inútil esperança da vitória
A bondade de minha gente
Fulgura, cintilante nos meus feitos,
Rola estuante de harmonia, nos meus gestos
E floresce, orvalhada de luz, nas minhas atitudes.
Busco sem cessar, dia e noite,
Numa luta generosa e boa,
Luz para a razão, pasto para a inteligência.
Eu sou o poeta desconhecido.

   Quem já teve a oportunidade de ver "singrar" suavemente nas correntes leves do Rio Paraguai a exuberância do camalote, não esquece sua imagem. E essa singularidade traz a mente duas figuras ímpares na inteligência do nosso estado. E lembrando Lobivar Barros de Matos; e tendo de fundo as fotos de Corumbá por Bolivar Porto ou sea unindo poesia e fotografia homenageio os 241 anos da Cidade Branca, a ser comemorado no transcorrer deste mês. Dessume-se que ele é a própria razão de ser do contexto,  pois deixou uma inovação temática e histórico-literária apresentando uma poesia regional que abarcava o povo e suas razões. Ele que deixou em sua obra um retrato dos espoliados, que se pontuava com poemas livres despojada de metrificações. Em Areôtorare (1935) fez representar a denúncia ante a catequização e dominação dos bororos perpassando a exploração do trabalhador, índio e negro; e se consubstanciou com o manejo genial das metáforas, na obra: Sarobá, do ano seguinte (1936) se tornando um autor construtor, de um texto peculiar, e altamente representativo da cultura pantaneira.

   Assim é a tessitura poética de Lobivar Matos, filho de Manoel Augusto de Matos e Brasília Nunes de Matos nascido em Corumbá a 12 de janeiro de 1915, foi amigo na infância do imortal poeta Manoel de Barros. Estudou no Ginásio Municipal em Campo Grande, hoje capital de Mato Grosso do Sul e terminou o Bacharelado em Ciências Jurídicas na Faculdade Nacional da Universidade do Brasil em 1941. O próprio poeta comentava que considerável parte de seus poemas realmente abordavam temáticas regionais e por isso eram simples e muito humanos com cheiro de cogitações íntimas e introspectivas; mas abarcando sua vida, sua história, seus amores.

   "O Sol é um martelete de Ouro perfurando o espaço" assim o poeta traz as leis científicas para o sonho do trabalhador que espera um melhor porvir numa coalescência entre o real e o poético aonde o tempo dialoga com o momento na voz do povo oprimido. É claro que como sou um homem de pouca leitura ao contemplar a indiferença natural das coisas ousamos sonhar e assim ousei escrever sobre o ignescente escritor que faleceu aos 32 anos, até porque em algum momento todos nós nos encontramos, nas letras desconhecidas. E assim ao perpetuar as portas do centenário de seu nascimento, nada mais justo que lembrar Lobivar Matos, que se intitulou de "poeta desconhecido" laureando em poesias a cidade que ele amava, ainda mais por ter se tornado o precursor do pré-modernismo no estado, a exemplo de seu primeiro poema, constante em Areôtorare, (livro de estreia), intitulado "Destino do Poeta Desconhecido". Ele, como se esperava, não fala de seu nascimento, mas vislumbra no futuro a sina de quem nascera para a poesia com gosto de guavira, olor de camalote e da saudade do casario do porto. E assim queremos Corumbá a cidade que preserva sua história mas tem os olhos voltados para o desenvolvimento sustentável

Rosildo Barcellos é poeta e Conselheiro de Cultura.

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