Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 23 de Setembro de 2019

Saúde

Quando menos é mais: repensar os excessos ajuda idosos no controle do peso

Correio Braziliense
Foto: Correio Baziliense menos é mais

O acúmulo de doenças acomete 33% da população mundial, principalmente os idosos, aumenta o risco de morte e diminui a qualidade de vida. Especialistas alertam que o problema está associado à obesidade, considerada epidemia em vários países

 

Pregam os minimalistas que, sem excessos, os dias seguem leves, com tempo e energia dedicados ao que de fato importa. A ode à simplicidade ganhou checagem científica, e os resultados de pesquisas têm mostrado que a lógica não muda. Quanto menos doenças acumuladas ao longo dos anos, a chamada multimorbidade, maiores as chances de se chegar à terceira idade esbanjando saúde e qualidade de vida.

Rotina e prontuário médico enxutos, porém, não são realidades da maioria. Em uma revisão de 70 estudos científicos sobre multimorbidade, pesquisadores britânicos concluíram que a prevalência global dessa complicação é de 33,1%. Segundo os cientistas, os números são ainda maiores na terceira idade. “A maioria dos estudos indicou que uma grande proporção — mais de 50%, em muitos casos — de indivíduos acima de 65 anos apresentava multimorbidade”, ressalta a equipe liderada por Hai Nguyen, pesquisadora da King’s College London, em artigo divulgado, no mês passado, no Journal of Comorbidity.

A média global a que a equipe britânica chegou concilia com resultados de outros estudos na área. Quem investiga o fenômeno também ressalta que ele está relacionado a mortes precoces e trabalha com a hipótese de que, em países desenvolvidos, a porcentagem de adultos com multimorbidade pode chegar a 75%. O Brasil parece caminhar a passos largos nessa direção. Ao analisar dados de 9.412 indivíduos com mais de 50 anos, um grupo de pesquisadores constatou que 67,8% tinham duas doenças ou mais e 47,1%, três ou mais. As enfermidades mais relatadas pelos participantes foram hipertensão (52,2%), problema de coluna (40,8%) e colesterol elevado (30,5%). Todas elas ligadas de alguma forma ao excesso de peso, também em alta no Brasil.Continua depois da publicidade

“A obesidade é um dos quatro principais fatores de risco para o surgimento de doenças crônicas, junto com a ingestão de álcool, o tabagismo e a inatividade física. É difícil dizer se ela causa a multimorbidade ou o contrário, mas, com certeza, impacta nessa questão”, diz Bruno Pereira Nunes, líder do Grupo Brasileiro de Estudos sobre Multimorbidade (Gbem) e primeiro autor do estudo, divulgado, em outubro, na Revista de Saúde Pública.

Os resultados também mostram diferenças na prevalência da multimorbidade considerando gênero, hábitos e características socieconômicas dos brasileiros. Por exemplo, ter duas ou mais enfermidades é mais frequente entre mulheres (75,5%), pessoas que estudaram de um a quatro anos (71,9%) e ex-fumantes (70,6%). No caso da faixa etária, 5,8% dos indivíduos com 50 a 59 anos e 11,3% dos participantes que haviam passado dos 80 anos apresentaram mais de seis morbidades.

Também professor da Universidade Federal de Pelotas, Bruno Pereira Nunes chama a atenção para as dificuldades atreladas a esse último perfil de paciente. “Há aumento nas hospitalizações, redução na autonomia de idosos, vulnerabilidade para o surgimento de outras doenças, além de dificuldade no manejo clínico”, diz. Em um estudo anterior com 1.593 idosos de Bagé (RS), o pesquisador observou que aqueles com três ou mais doenças tiveram 210% mais hospitalizações não cirúrgica quando comparados a indivíduos sem a complicação. “Análises como essas mostram que a multimorbidade é uma questão de saúde pública”, defende.

Limitações diárias

Também é um desafio individual viver bem quando se acumula doenças crônicas, frisa Randara Rios Iwace, médica geriatra do Hospital Brasília e do Instituto de Medicina do Movimento (IMOV). “A obesidade sarcopênica, que é a perda da massa magra, fragiliza muito o idoso e é um fator de risco para o surgimento e o agravamento de doenças crônicas, como diabetes, acidente vascular encefálico e certos tipos de câncer. Perde-se muito em qualidade de vida.”

Pesquisadores da Duke-NUS Medical School, em Cingapura, conseguiram ilustrar o prejuízo em números. Em um estudo com  3.452 idosos, concluíram que, aos 60 anos, obesos podem esperar viver 6,3 anos a mais com limitações na função física, quando comparados a indivíduos com peso normal. Nesse quesito, foram consideradas atividades como caminhar de 200 a 300 metros e subir 10 degraus sem parar.

Os voluntários também tiveram avaliadas possíveis dificuldades para executar atividades rotineiras, como tomar banho e se vestir. Nesse caso, quem está acima do peso e entrou na sétima década de vida poderá viver 3,5 anos a mais com limitações. A relação foi constatada em diferente faixas etárias: aos 60, 70 e 80 anos.  “A obesidade demonstrou ter efeitos adversos na saúde e na expectativa de vida em todas as idades. Esse estudo poderá (…) ajudar a melhorar a qualidade de vida da população idosa de Cingapura”, afirma, em comunicado, Patrick Casey, vice-reitor da universidade.

Líder do estudo, Rahul Malhotra acredita que tanto os resultados quanto as possíveis intervenções sociais podem se adequar à realidade de outros países. “Algumas conclusões coincidem com estudos anteriores realizados nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália. Espero uma situação semelhante — isso é, a associação da obesidade com redução dos anos de vida saudável —  em outros locais”, diz ao Correio o chefe de Pesquisa do Centro de Pesquisa e Educação sobre o Envelhecimento. A equipe se dedica, agora, a um estudo com indivíduos mais novos, enquadrados na meia-idade, a fim de comparar os resultados e verificar se os efeitos da obesidade podem mudar ao longo dos anos de vida.

Milhões de vítimas

Todos os anos, doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, câncer e problemas cardiovasculares, são responsáveis por 41 milhões de mortes, o equivalente a 70% dos óbitos no planeta, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). As maiores perdas são registradas em países desenvolvidos, que respondem por 85% da estatística.

 

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