Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 20 de Julho de 2019

Internacional

Orgulho, desilusão, um sacrifício e uma crítica grave: a derradeira entrevista de Theresa May antes de deixar Downing Street

Expresso – Portugal
Foto: Divulgação / Assessoria orgulhojpg.jpg

Daqui a 12 dias será outra pessoa a ocupar o número 10 de Downing Street. Theresa May ainda é a primeira-ministra do Reino Unido mas foi forçada a anunciar o seu afastamento em maio, depois de os seus próprios deputados se terem recusado a aceitar o falhanço das negociações do Brexit, o que, por sua vez, argumentaram alguns conservadores da ala mais eurocética, impediu o país de sair da União Europeia no dia prometido: 29 de março de 2019.
No seu lugar ficará ou Boris Johnson ou Jeremy Hunt, um ou outro herdam a mais venenosa pasta da política britânica: o Brexit, a futura ligação, se alguma, ao bloco de 28, tema que assombra o partido conservador desde a criação da CEE. No balanço, May disse que se sente “com um misto de orgulho e desapontamento” por não ter feito outras coisas que queria mas não se revê nas críticas que lhe fazem no dossiê Brexit: “Fiz tudo o que pude para aprovar um acordo, sacrifiquei o meu emprego para isso”, disse May à BBC.
Theresa May recebeu a editora de política da BCC, Laura Kuenssberg, em Downing Street e falou da “frustração” que ainda sente por não ter conseguido transformar o Brexit numa realidade. “Subestimei a relutância de alguns membros do parlamento em aceitar um acordo. Sabia que as negociações com a UE seriam duras mas subestimei o quanto os deputados se negariam a aceitar um resultado que foi a escolha da população em referendo. Se tivéssemos assinado o meu acordo já tínhamos saído da União Europeia”: foi esta a forma diluída que May encontrou para criticar os deputados por lhe terem dificultado tanto a vida. “Houve momentos em que me sentei a pensar que gostaria muito de ter concretizado o Brexit, gostava de ter atingido essa meta mas, bom, vamos ter de tentar de novo”, acrescentou, afirmando que tem confiança em ambos os nomes que podem vir a suceder-lhe.
Nas vésperas de atingir a marca dos três anos à frente dos destinos do país, May fez também questão de recordar que tem orgulho de muitas das coisas que fez, isto apesar de quase nunca se falar disso, dado que tomou o lugar de David Cameron precisamente porque o ex-primeiro-ministro considerou que não poderia liderar o país na concretização de uma rutura que ele tinha lutado para que não acontecesse. “Acho que fizemos coisas muito importantes ao longo dos últimos três anos mas penso que toda a gente chega ao fim de cargos destes a pensar que poderia ter feito muito mais, e ainda havia muito mais que eu gostava de ter feito”, disse, e acrescentou exemplos de temas que, sem a sua influência, permaneceriam “fora do radar” por “não estarem na moda”, como os apoios à saúde mental ou a luta contra formas modernas de escravatura.
Durante o seu mandato, May enfrentou algumas das críticas mais duras na memória recente. O epíteto de “pior primeira-ministra da História” chegou a circular, quando falhou, em janeiro deste ano, pela maior margem na história do Parlamento (230 contra), a aprovação do acordo do Brexit. Desde aí ouviu quase tudo: que o seu acordo se parecia ao “pequeno almoço de um cão”, que estava a “entregar tudo a Bruxelas”, independência do país incluída, que “o sonho do Brexit foi assassinado”, além de consecutivos pedidos para que ela simplesmente abandonasse o cargo. À BBC, May disse que “é sempre complicado entender as coisas menos boas que dizem” de nós. “Algumas pessoas dizem-me que eu me mantive demasiado fiel às minhas linhas vermelhas e outras, às vezes as mesmas, dizem que eu cedi demasiado. Ora bem, não podem ser ambas verdade e os deputados têm responsabilidade pela forma como votaram”, defendeu-se a primeira-ministra.
Em mais uma tirada contra aqueles que impediram que o Brexit acontecesse ainda no seu mandato, May puxou de uma certa dose de ironia para explicar parte do seu insucesso: “Assumi que o parlamento estaria pronto e entusiasmado para fazer aprovar o Brexit, dado o resultado do referendo em 2016 e o resultado da eleição de 2017, que apoiou os partidos comprometidos com a saída”. Não é exatamente assim. Theresa May convocou uma eleição geral para maio de 2017 e acabou a precisar dos unionistas irlandeses para conseguir manter a sua maioria.
ANA FRANÇA
 

Deixe seu Comentário