Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 16 de Outubro de 2019

Espiritualidade e religião

O Papa na criação de Cardeais: ser testemunhas da compaixão e da misericórdia

Vatican News
Foto: Divulgação / Assessoria o20papajpeg.jpg

“Estamos conscientes – a começar por nós – de que fomos objeto da compaixão de Deus? Dirijo-me em particular a vós, irmãos já Cardeais ou próximo a sê-lo: está viva em vós esta consciência? A consciência de ter sido e continuar sendo incessantemente precedidos e acompanhados pela sua misericórdia?”
Foram algumas das interpelações do Papa durante a homilia na tarde deste sábado (05/10), na Basílica de São Pedro, no Consistório no qual foram criados treze Cardeais. Em sua reflexão, partindo do trecho do Evangelho de São Marcos 6, 30-37a – pouco antes proclamado –, o Santo Padre se concentrou na “compaixão” de Jesus, centro da narração evangélica proposta, desenvolvendo-a posteriormente. “Compaixão, palavra-chave do Evangelho; está escrita no coração de Cristo, está sempre escrita no coração de Deus”, frisou.
Francisco observou que nos Evangelhos, frequentemente, vemos Jesus “sentindo compaixão pelas pessoas que sofrem. E quanto mais lemos, mais contemplamos e mais entendemos que a compaixão do Senhor não é uma atitude ocasional e esporádica, mas é constante; mais, parece ser a atitude do seu coração, no qual encarnou a misericórdia de Deus”.
Referindo-se à cura de um leproso na Galileia em que, compadecido diante deste que se ajoelhara e suplicara que o curasse, Jesus estende-lhe a mão, toca-o e ordena que este fique purificado, o Pontífice acrescentou que neste gesto e nestas palavras, temos a missão de Jesus, Redentor do homem: “Redentor na compaixão. Ele encarna a vontade de Deus de purificar o ser humano doente da lepra do pecado; Ele é a ‘mão estendida de Deus’, que toca a nossa carne enferma e, fazendo-o, preenche o abismo da separação”.
“Esta compaixão não despontou a certo ponto da história da salvação. Não! Sempre existiu em Deus, gravada no seu coração de Pai. Vemo-lo na narração da vocação de Moisés, quando Deus lhe fala da sarça ardente dizendo: ‘Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito, e ouvi o seu clamor, (...) conheço, na verdade, os seus sofrimentos’ (Ex 3, 7)”, continuou.
“Muitas vezes, os discípulos de Jesus dão provas de não sentir compaixão, como neste caso da multidão faminta. Basicamente dizem: ‘Que se arranjem!’ É uma atitude comum entre nós, seres humanos, mesmo em pessoas religiosos ou até ligadas ao culto. A função que desempenhamos não basta para nos fazer compassivos, como demonstra o comportamento do sacerdote e do levita que, vendo um homem moribundo na beira da estrada, passaram ao largo (cf. Lc 10, 31-32). Terão dito para consigo: «Não é da minha competência». Há sempre justificações; às vezes até se tornam lei, dando origem a «descartados institucionais», como no caso dos leprosos: ‘É certo que devem estar fora; é justo assim’. Deste comportamento muito humano, demasiado humano, derivam estruturas de não-compaixão.”
Após interpelar se estamos conscientes de que fomos objeto da compaixão de Deus, dirigindo-se em particular aos já Cardeais ou aos que logo em seguida receberiam o barrete cardinalício, Francisco afirmou que “esta consciência era o estado permanente do coração imaculado da Virgem Maria, que louva a Deus como seu ‘Salvador, porque pôs os olhos na humildade da sua serva’ (Lc 1, 48)”.“Em nós, está viva a consciência desta compaixão de Deus por nós? Não se trata duma coisa facultativa, nem – diria – dum ‘conselho evangélico’. Não! É um requisito essencial. Se não me sinto objeto da compaixão de Deus, não compreendo o seu amor. Não é uma realidade que se possa explicar. Ou a sinto, ou não. E, se não a sinto, como posso comunicá-la, testemunhá-la, dá-la? Concretamente: Tenho compaixão pelo irmão tal, pelo bispo tal, pelo padre tal? Ou sempre destruo com a minha atitude de condenação, de indiferença?”
Desta consciência viva depende também a capacidade de ser leal no próprio ministério. Vale também para vós, irmãos Cardeais, destacou o Papa acrescentando:
“A disponibilidade de um Purpurado para dar o seu próprio sangue – significado na cor vermelha das suas vestes – é certa, quando está enraizada nesta consciência de ter recebido compaixão e na capacidade de ter compaixão. Caso contrário, não se pode ser leal. Muitos comportamentos desleais de homens de Igreja dependem da falta deste sentimento da compaixão recebida e do hábito de passar ao largo, do hábito da indiferença.”
“Peçamos hoje, por intercessão do apóstolo Pedro, a graça dum coração compassivo, para ser testemunhas d’Aquele que nos olhou com misericórdia, escolheu, consagrou e enviou para levar a todos o seu Evangelho de salvação”, exortou por fim o Santo Padre.
Concluída a homilia, passou-se à criação propriamente dita dos novos Cardeais. Francisco elencou os nomes dos novos purpurados e anunciou a Ordem Presbiteral ou Diaconal à qual foram designados.
Seguiu-se o ritual, entre outros, com o ato solene de imposição do barrete, a entrega do anel cardinalício e a atribuição do Título ou da Diaconia aos novos purpurados entre os quais, Dom Miguel Ángel Ayuso Guixot, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso; Dom José Tolentino Calaça de Mendonça, arquivista e bibliotecário de Santa Romana Igreja, e Dom Juan de la Caridad García Rodríguez, arcebispo de Havana, em Cuba.

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