Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 23 de Abril de 2019

Internacional

Notre-Dame e as Artes. O que há (ou havia) de especial nesta catedral?

Expresso
Foto: FRANCOIS GUILLOT / GETTY Catedral de Notre Dame em Paris
Catedral de Notre Dame em Paris

Num edifício com tanta história, onde Napoleão se fez coroar imperador, uma das glórias maiores é a excelência artística a que está associada desde há séculos



A catedral de Notre-Dame não é apenas uma obra de arte em si mesma, uma jóia da arquitetura mundial que milhões de pessoas reconhecem instantaneamente sem nunca lá terem estado, como a Torre Eiffel ou o Taj Mahal. É também um espaço onde coexistem muitas obras de arte, de diversos tipos. Isso faz com que os danos agora sofridos sejam especialmente trágicos.

A primeira obra-prima artística da catedral é a sua fachada, onde se deteta a chamada proporção áurea, ou regra de ouro. Não se trata de nenhum imperativo estrutural, mas de um princípio estético. Diz-se que tem o efeito de tornar mais harmonioso um edifício onde seja aplicada, e qualquer breve olhar à fachada sugere que é verdade, embora haja nela outras coisas que a tornam bela, desde as esculturas no portal e por cima dele até à própria variedade das texturas nos diversos planos que a compõem. Ao contrário de outras fachadas de igrejas, a de Notre-Dame não é pesada nem impositiva. É um milagre de elegância em pedra, único no mundo.

Felizmente, as duas torres da fachada, que são do século XIII, resistiram ao incêndio, ao contrário do pináculo, um acrescento do século XIX construído em madeira coberta de chumbo. No centro da fachada encontra-se uma de três rosetas, a mais pequena – dez metros de diâmetro, contra 12,90 em cada uma das dos lados - que há na catedral. Apesar de informações iniciais sugerirem a sua destruição por o metal que segurava os vidros ter derretido, foi possível salvá-las.

Espalhadas pela catedral há, ou havia (em muitos casos a situação não é clara), centenas de pinturas e esculturas. As primeiras incluem uma série de 76 obras de pintores do século XVII, cada uma com quatro metros de altura, representando cenas do Novo Testamento. Quanto às esculturas, o acervo é enorme, desde as famosas gárgulas sempre proeminentes em qualquer livro ou filme passado na catedral até às que encontramos nos três elaborados portais da entrada e por cima deles.

Sabemos que parte das esculturas foram retiradas durante as obras de restauro que estavam em curso. Muitas outras não o terão sido, e calcula-se que as perdas sejam enormes. Embora existam registos minuciosos daquilo que havia e em teoria seja possível fazer uma reconstrução mais ou menos total, jamais será igual ao que estava, até porque a velha arte de esculpir à mão já não existe como antes. Hoje usam-se máquinas para cortar a pedra, e os resultados, inevitavelmente, serão diferentes.

Ainda em matéria de artes – não de património que tenha ficado em perigo - não podemos esquecer a importância fundamental da catedral na história da música europeia. Foi lá que se desenvolveram técnicas de contraponto que depois se espalharam por todo o continente e pelo mundo. Na chamada Escola de Notre-Dame, a partir do século XII – mais ou menos coincidindo com o período de construção do edifício – foram também criados modos rítmicos para fixar a duração relativa das notas e coordenar as frases sobrepostas das várias vozes.

Falando em música, o órgão de Notre-Dame, com os seus 1840 tubos e cinco teclados, é o maior da França, levando o nome adequado de Grande Orgão. Em termos estatísticos, não são menos impressionantes os 37 anos que passou como seu titular o organista e compositor Louis Vierne. Entre 1900 e 1937, Vierne deu lá nada menos do que 1750 concertos, morrendo subitamente a meio do último.

Na literatura, a referência chave é o romance que Victor Hugo publicou em 1831 e que leva como título, justamente, o nome do edifício: Notre-Dame de Paris. História de um amor não correspondido entre um corcunda que vive no campanário da igreja e uma bela cigana (com outras complicações amorosas pelo meio, num argumento tipicamente romântico) relançou a popularidade da igreja, que estava decadente.

O restauro ordenado em 1844 levou duas décadas, envolvendo mestres das diversas artes sob a direção de arquitetos. A base geral do trabalho, embora nem sempre, foram desenhos e outras representações antigas do edifício. Um século depois, em 1963, novo contributo fundamental para restituir ao edifício a sua glória foi dado pela iniciativa do ministro da Cultura André Malraux, que mandou limpar a cobertura negra que se tinha acumulado na superfície da catedral ao longo dos séculos.

Na sua ilha a meio do Sena, Notre-Dame, com os seus distintivos arcobotantes e o seu perfil a evocar um barco, é um edifício que, talvez mais do que qualquer outro, torna Paris a Paris que conhecemos. Embora gravemente ferida, sobreviveu ao incêndio. Um dia voltará a ser como era.

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