Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 20 de Maio de 2019

Internacional

No “pior país do mundo para se ser mulher” foi assassinada mais uma durante o fim de semana

Expresso
Foto: FARSHAD USYAN / GETTY IMAGES Cabul, capital do Afeganistão
Cabul, capital do Afeganistão

Mina Mangal, uma conhecida jornalista alemã que trabalhava atualmente como conselheira política, já tinha avisado a respeito das ameaças que lhe tinham sido dirigidas e no sábado acabou mesmo por acontecer o pior. Foi assassinada em Cabul, capital do Afeganistão, à luz do dia, mas ainda não há responsáveis ou cúmplices.

Em comunicado, o ministro afegão do Interior, Nasrat Raimi, explicou que Mina Mangal foi assassinada às 7h20 (cerca de três horas menos em Lisboa). De acordo com várias testemunhas, dois homens de mota terão intercetado a jornalista enquanto esta esperava por um carro. Um dos atacantes disparou quatro tiros para o ar para dispersar as pessoas no local e de seguida atingiu Mina Mangal com dois tiros no peito. Alguns dos familiares da jornalista confirmaram à Radio Free Europe/Radio Liberty que esta de facto se encontrava à espera de um carro que a levaria para o Wolesi Jirga, a câmara baixa do Parlamento afegão, onde trabalhava como conselheira cultural.

A principal preocupação agora, conforme expressada pelo Supremo Tribunal do Afeganistão e grupos da sociedade civil, incluindo a comissão nacional que trata de casos de violência cometidos contra mulheres, é descobrir o que aconteceu exatamente.

Recentemente, a jornalista e conselheira cultural contou, numa publicação feita no Facebook, que tinha recebido várias ameaças e que temia pela sua vida, assim relatou uma proeminente ativista afegã dos direitos humanos, Wazhma Frogh. Embora não se saiba em que consistiram estas ameaças, um porta-voz da polícia revelou à Reuters que há suspeitas de uma disputa familiar.

AFEGANISTÃO É O “PIOR PAÍS DO MUNDO PARA SE SER MULHER”

O seu homicídio levantou várias questões nas redes sociais, onde muitos utilizadores chamaram a atenção para o aumento da violência contra mulheres no país. Houve quem tivesse salientado que alguns dos maiores crimes contra mulheres no Afeganistão ocorreram durante o dia e na chamada “zona verde” da capital, onde se localizam várias embaixadas e o palácio presidencial, e que é altamente protegida.

Segundo vários grupos de direitos humanos, os casos de violência de género têm aumentado significativamente, sobretudo em áreas dominadas pelos talibãs. Um estudo realizado recentemente pela Thomson Reuters Foundation e divulgado pela Amnistia Internacional, concluiu, aliás, e com base em entrevistas com mais de 200 especialistas em direitos das mulheres, que o Afeganistão é o pior país do mundo para se ser mulher, seguido da República Democrática do Congo, Paquistão, Somália e Índia (foram tidos como critérios os casos de violação e outras formas de violência, falta de serviços de saúde, pobreza e tráfico humano).

Apesar dos esforços do Governo afegão e seus doadores internacionais para promover uma educação mais abrangente, cerca de dois terços das raparigas não frequenta a escola (números de Human Rights Watch); 97% das mulheres são iletradas e entre 70% a 80% são vítimas de casamentos forçados, muitas vezes antes de completarem sequer os 16 anos (Amnistia Internacional). Os EUA têm tentado ajudar, mas alguns dos seus programas de apoio têm sido considerados um fracasso, nomeadamente o programa intitulado “Promote”, que tinha como objetivo facilitar o acesso ao trabalho por parte das mulheres afegãs através de um fundo no valor de 280 milhões de dólares (cerca de 250 milhões de euros). “Não temos quaisquer dados que indiquem que as mulheres estejam, de facto a ser ajudadas”, referiu o diretor do Special Inspector General for Afghan Reconstruction (a autoridade norte-americana que supervisiona a reconstrução do Afeganistão), em setembro de 2018.

Não é certa a ligação entre as duas realidades mas na verdade são as mulheres quem mais se suicida no Afeganistão, 80% do total dos suicídios, segundo dados do Governo afegão, fazendo do país um dos poucos em que este número é maior entre a população feminina. Embora antigo, e por certo desatualizado, o estudo realizado pela organização não-governamental Global Rights em 2008 não deixa de ser revelador: quase 90% das mulheres afegãs já foram vítimas de violência doméstica.

Quanto ao número de homicídios envolvendo jornalistas, a situação também é especialmente problemática, tendo a organização não-governamental Repórteres sem Fronteiras listado o Afeganistão como um dos países menos seguros, em 2018. Nesse ano, morreram 16 jornalistas no país, nove dos quais no duplo atentado suicida ocorrido em Cabul a 30 de abril.

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