Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 20 de Julho de 2019

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NA MATINÊ DO SANTA CRUZ - Por: Augusto César Proença

Redação TerereNews
Foto: tarzanchita tarzanchita

Não se enxergava nada naquela escuridão. Mesmo assim ele entrou sem esperar a ajuda do lanterninha, e, tateando como um cego, por sorte encontrou uma cadeira vazia logo no início da fila e se sentou.
    O filme era de Tarzan. E filme de Tarzan, na matinê do Santa Cruz, era uma zorra total. Um a guerra de pipocas. A turma gozava. Ria. Aplaudia. Fazia uma tremenda algazarra acompanhando as cenas que se desenrolavam em preto e branco. 
    Quando a vista dele se acostumou com a escuridão viu que uma garota, tão adolescente quanto ele, estava sentada a seu lado. Notou também que se encontrava sozinha, pois a outra cadeira seguinte permanecia vazia. Legal, pensou, relaxando-se mais um pouco, enquanto mascava o chiclete de bola.
    De vez em quando despregava os olhos da tela e olhava a menina. Era loirinha, tinha um perfil bem feito, a silhueta dos seios aparecia saliente na hora em que a sala clareava. Mas estava compenetrada. Séria. Não tirava o olhar da tela: por que será que estava sozinha?
    Tarzan agora voava num cipó, elefantes desfilavam com as trombas erguidas fazendo alaridos. O cinema vinha abaixo com tanta gritaria.
    Ele olhava a gatinha e ela não olhava para ele. Sacanagem. Consertou a garganta, pensou em lhe oferecer um chiclete, mas teve vergonha, podia achar ruim, levantar-se, ir embora, e isso seria estragar tudo. Ela ali ao lado lhe dava um calorzinho diferente e perfumado. Embora afastados alguns palmos, sentia o coração pular quando ela, por descuido, esbarrava-se nele. Lá uma hora resolveu colar a perna na coxa da menina, mas ela se afastou, esquiva.
    Jane agora trazia a Chita puxada pelas mãos. Mais risos, mais gritaria. A macaca era gozada, tinha um andar desengonçado.
    A mão. Sem sentir deixou que avançasse e resvalasse no braço dela. Ela se mexeu na cadeira, cruzou os braços, enlaçou os seios, afastou-se pouquinho mais dele, se protegendo. Menina difícil! Que tal se falasse alguma coisa, perguntasse o seu nome, onde morava, por que estava sozinha naquela tarde? Mas a timidez de menino o impediu e preferiu mudar de tática. Ficou duro na cadeira, sem se mexer, olhando sem ver o que se passava na tela. E ficou um tempão desse jeito, até que ela, sim, ela mesma, tomou a iniciativa de se aproximar. Foi se chegando devagar e permitiu que os dedos dele acariciassem a pele macia daquele braço.
    Tarzan ainda pulava de galho em galho. Um grito prolongado e selvagem enchia o espaço da sala de projeção.
    A mão dela era fria, suada, tremia. Então ele a apertou um pouco sentindo um estranho prazer invadir-lhe a carne. Alguma coisa revelava um novo mundo dentro dele, sim, agora tinha a certeza: sabia que não era mais criança. Uma onda de desejo o desafiava, pulsava, melava, latejava e subia para percorrer a pele, o corpo, a alma, tomando conta de tudo. “Seria isso... seria isso o amor?... Se perguntou várias vezes, enquanto ela encostava mais o corpinho junto ao seu, permitindo que ele tivesse a liberdade de tocar-lhe os seios : e tocou!
    A princípio de leve, com a timidez de um menino, depois mais audacioso, com o desejo de um homem. Apertou com tanta força o peito da menina que ela deu um grito de repente e o olhou como se olhasse um demônio. Disse: pára com isso, pô, assim não.!
    Sem pedir desculpa, enlaçou o braço no pescoço da menina e puxou, dessa vez com o carinho de um amante. E ficaram assim juntinhos, ombro a ombro, cabeças inclinadas para trás da poltrona, juntinhos como uma coisa só confundida e escondida naquele escurinho de cinema.
    Olhos amortecidos um para o outro, respiração ritmada, quase boca a boca, até que as línguas se soltaram e começaram a circular e circularam-circularam-circularam, uma em volta da outra para estalar na quentura de um beijo sufocado de gemidos úmidos. Tão prolongados como o grito de Tarzan lá na tela. Um beijo deslumbrado, insistente, impetuoso, que permanece ainda na saudade, feito coisa que a gente nunca esquece.

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