Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 23 de Setembro de 2019

Variedades

Livro questiona as circunstâncias da morte de Juscelino Kubitschek

Correio Braziliense
Foto: Divulgação / Assessoria livrojpg.jpg

Quando se quer enganar a história, os fatos não fecham. E quando os fatos não fecham, nascem e renascem as hipóteses, os boatos, as mentiras, os rumores e o zumzum. E esse zumzum, apesar de estar na canção alegre e predileta de Juscelino Kubitschek de Oliveira — Peixe vivo — é de tristeza e revolta. Pois bem, o acidente que matou JK no km 165 da rodovia Dutra, em 22 de agosto de 1976, há 43 anos, continua não fechando. E surge um novo livro para recontar a história: O assassinato de JK pela ditadura: Documentos oficiais, organizado por Alessandro Octaviani, Lea Vidigal e Marco Braga (professores e integrantes de grupos de pesquisa da USP) e editado pela LiberArs. Este livro, em dois volumes, foi lançado em São Paulo, em Brasília e no Rio de Janeiro, em agosto de 2016, quando a morte de JK completou 40 anos. Agora, em 2019, a editora acaba de relançar a obra com conteúdo idêntico, mas em tomo único. Para entender bem o livro, nada melhor do que conversar com os autores do livro.
Como a pesquisa começou? Por que nasceu o livro?
Lea Vidigal: — A pesquisa teve início quando a Comissão Nacional da Verdade (CNV) se recusou a ouvir o Coronel Affonso Heliodoro dos Santos (falecido em 20 de outubro de 2018) e Carlos Murillo Felício dos Santos, como testemunhas do “caso JK”. São pessoas da maior intimidade e convívio com o presidente Juscelino, que conheciam de perto as circunstâncias imediatamente anteriores e posteriores à sua morte, fundamental para qualquer investigação séria sobre um caso dessa magnitude.
Como mestranda em direito econômico, eu pesquisava a história do planejamento econômico no Brasil. O governo JK era o momento estelar desse processo, então naturalmente precisei aprofundar-me em seu estudo, e, simultaneamente, em 2013, as comissões da verdade investigavam graves violações de direitos humanos por todo o Brasil. Ao final daquele ano, tive acesso ao relatório da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo Vladimir Herzog, que concluiu pelo assassinato político com base em 103 elementos de prova. 
O que constava no relatório oficial?
Basicamente, o Relatório Preliminar da CNV sobre JK, lançado em abril de 2014, era uma reprodução malfeita do laudo oficial da ditadura sobre a morte de Juscelino: fraudado para forjar a tese de acidente, absolutamente inconsistente e inepto a revelar a verdade. Foi rechaçado pelo Judiciário mesmo à época da ditadura, quando o motorista de ônibus Josias de Oliveira foi inocentado da acusação de ter causado o acidente (ao supostamente colidir com o Opala em que viajava o presidente na Rodovia Dutra). O laudo da ditadura - acolhido calorosamente pela CNV — criou a versão de que a morte teria sido acidental alterando e eliminando muitos elementos de prova. Josias de Oliveira foi usado de bode expiatório no processo criminal, tendo inclusive sido noticiado seu “suicídio” pela revista O Cruzeiro.
Por que o caso JK voltou à tona?
Marco Aurélio Braga: Sempre se soube que o caso JK era repleto de elementos suspeitos e de mentiras, como a notícia plantada de que JK teria morrido por colisão de trânsito, dias antes de realmente ocorrer, ou mesmo os diversos planos dos militares que existiam desde a década de 1960 para matá-lo. Entretanto, o país demorou até chegar perto de investigações sérias, amplas e técnicas. Com a instalação das chamadas Comissões da Verdade, pensou-se que tal lacuna seria preenchida. A CNV, sobre JK, nada fez, a não ser repetir e proteger a ditadura. Assim, o carinho do povo brasileiro por JK, que é imenso até hoje, aliado ao surgimento de investigações sérias e técnicas, como as da Comissão Rubens Paiva e da Comissão Vladimir Herzog, trouxeram o caso novamente à tona. Hoje, universitários, cidadãos, jornalistas e artistas estão rediscutindo o caso, que nos permitirá entender melhor um período que nunca mais queremos que volte a se repetir.
Quais são as novidades do “Caso JK” que o livro traz?
Lea Vidigal: Em primeiro lugar, o livro reúne, de forma inédita, todas as manifestações do Estado brasileiro com pretensão de validade final sobre a morte de JK, algo que nunca havia sido feito anteriormente pela historiografia brasileira. Em segundo lugar, buscou-se publicar os documentos em sua forma original e na cronologia em que surgiram, para demonstrar a evolução do assunto dentro do Estado, da maneira mais exata possível. Ao juntar os relatórios das investigações mais sérias e técnicas — das Comissões “Rubens Paiva” e “Vladimir Herzog” —, o livro reúne uma série de depoimentos, sentenças judiciais, documentos estrangeiros, manifestações na imprensa, documentos técnicos, entre outros, que estavam desconectados, soltos, fazendo com que a conexão entre os elementos demandasse um esforço descomunal a qualquer brasileiro interessado pela verdade sobre a morte de um Presidente da República. Este era um dos objetivos da ditadura: que as peças da verdade nunca fossem juntadas, que os elementos não fossem colocados em um todo. Assim, nunca seria possível entender o que eles fizeram. O livro coloca as peças juntas e demonstra o que eles fizeram, de maneira a que o leitor possa tirar suas próprias conclusões.
Para qual público essa obra é útil?
Marco Aurélio Braga: A obra é útil para um povo interessado em tomar o seu destino nas próprias mãos, com alegria, vigor e generosidade com o próximo – marcas que Juscelino deixou em seus governos, e mesmo depois de sua cassação e perseguição. Por esse motivo, a obra tem um duplo propósito: primeiro, revelar a verdade sobre o Caso JK sem qualquer filtro para o leitor. Esse é um exercício de cidadania fundamental e inalienável do povo brasileiro.
Em segundo lugar, queremos fazer despertar o interesse sobre o homem e a vida pública de JK: quem foi este brasileiro? O que ele fez por sua pátria? Por que quiseram assassiná-lo? Qual era seu projeto para o Brasil? Como resgatar a energia do “Prefeito Furacão”, do “Presidente Bossa-Nova”? Esses objetivos são ao mesmo tempo do historiador, do pesquisador, do político e dos cidadãos, que têm como missão contribuir para a formação da consciência política, tendo o direito e o dever de conhecer a história do seu país, a grandeza do qual fazemos parte, e também os erros do passado, para que possamos fazer melhor no presente e construir o futuro digno com confiança e liberdade.
Vocês lançaram o livro em 2016, em dois tomos. Agora a editora acaba de lançar o mesmo livro em tomo único. Houve atualização?
Lea Vidigal: — Sim, agora em 2019 a editora acaba de fazer um novo lançamento em tomo único. Ficou melhor apresentado e mais fácil de manusear. O conteúdo é idêntico.
Como vocês avaliam o governo JK.?
Alessandro Octaviani - O Governo JK levou o Brasil a dar um salto inédito em termos de desenvolvimento econômico e justiça social. O Brasil cresceu mais de 7% ao ano em média, foi o maior salário mínimo da história (até hoje não superado), a integração territorial e a construção de Brasília, pela obra de grandes mestres e os candangos, entusiasmaram e ergueram a honra do brasileiro em todos os cantos do país. A arte brasileira viveu uma explosão criativa e o esporte foi campeão mundial em inúmeras modalidades. O Brasil tocou e viveu o seu sonho. 
Por que JK foi um dos primeiros a serem eliminados, em 1964?
Alessandro Octaviani: Sim, em 1964 JK foi eliminado pela primeira vez pelos seus opositores golpistas, quando já era candidato a presidente com o Programa “5 anos de agricultura para 50 anos de fartura”. Teve seus direitos políticos cassados, foi exilado, preso e publicamente difamado pela ditadura, com o apoio dos EUA. Em 1976, Juscelino tinha recuperado formalmente seus direitos políticos e estava em plena atividade, articulando politicamente sua volta ao cenário nacional. Ainda era um dos líderes mais populares do país, e teria conduzido a redemocratização como seu principal líder, dado seu carisma e sabedoria. 
Silvestre Gorgulho - Especial para o Correio
 

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