Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 23 de Setembro de 2019

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Ler os sinais dos tempos - por: Pe. Kurian

Redação TerereNews
Foto: sinaisdotempo sinaisdotempo

Ler os sinais dos tempos é uma característica dos cristãos desde sempre. Quais os sinais preocupantes que pedem ação cristã no momento? Um dos mais alarmantes é a volta feroz do colonialismo com o progresso técnico-tecnológico e a globalização manipulados pelos poderosos em seu seu favor.

Faz poucos dias que uma amiga, que passou alguns dias nos EUA em Janeiro, partilhou comigo sua indignação ao ver a miséria dos moradores de rua daquele país capitalista neste inverno. Atualmente, os EUA é força motora maior da onda colonialista que forçosamente substitui governos de tipo bem-estar social pelos que cumprem a “agenda neoliberal”. No Brasil mesmo essa onda substituiu o governo legítimo com colaboração do legislativo federal, que agora desmonta do Estado de bem-estar social em prol de um novo tipo de colonização ao cumprir a agenda neoliberal!

Essa mesma onda neoliberal conseguiu a quase total adesão do judiciário brasileiro e a imprensa brasileira à sua cruzada de criminalização dos seus adversários aplicando vultosas somas de dinheiro oportunamente na forma de aumento de salários, subvenções e auxílios etc.. As campanhas midiáticas que visa a eliminação dos seus oponentes por linchamento judicial está bem avançada. Diante de tudo isso o povo passa um momento de perplexidade. Essa campanha também conseguiu reimplantar o sentimento tradicional de impotência, que governo petista tinha alterado, numa boa parte da população brasileira.

Hoje a crítica do capitalismo está fora de moda e o triunfalismo neoliberal parece irrefutável! Após a queda do Muro de Berlim e a implosão dos Estados Comunistas, a Esquerda, quando não abraça o capitalismo, limitou-se a almejar a ser melhor administradora do mercado fazendo concessões paliativas às mazelas sociais. Neste contexto é necessário dar início a uma reflexão cristã que paulatinamente levaria a uma crítica teológica do capitalismo, baseando-se nos valores do Reino de Deus que Jesus de Nazaré anunciava. Ao mesmo tempo é preciso ter em mente que o capitalismo tem sua própria história de, pelo menos, três séculos já. Neoliberalismo é seu novo avatar iniciando-se nos EUA nos anos de 1930s.

A história mostra que os seguidores de Jesus de Nazaré têm mostrado sua capacidade de ler os sinais dos tempos e agir como “sal da terra e luz de mundo” em vários momentos ao longo dos vinte séculos da existência do movimento cristão. Aqui na América Latina mesmo, aqueles que a “lawfare neoliberal” hoje peleja eliminar, são frutos de um momento de releitura das Escrituras e o repensar da vocação cristã, realizados no contexto latino-americano durante os anos imediatamente depois do Concílio Vaticano II, caracterizando a recepção inculturada dos decretos do mesmo Concílio.

Mas, primeiro, é necessário traçar, mesmo muito resumidamente, o percurso que o capitalismo atravessou desde seu surgimento no início da modernidade europeia. Como um sistema, o capitalismo é sucessor do mercantilismo. O capitalismo baseia-se na propriedade privada, a posse dos meios de produção e de troca. Ele caracteriza-se, desde cedo, pela sua busca de lucro, pela livre iniciativa individual e pela concorrência livre. A palavra Capitalismo entrou no vocabulário econômico e política na revolução industrial, na época em que Karl Marx publicou sua obra principal “Das Kapital”.

A modernidade foi o resultado de duas revoluções: a revolução econômica; e a revolução político-ideológica. A primeira (revolução industrial) começou na Inglaterra no século 18. A segunda, isto é, a revolução político-ideológica, concretizou-se na França (1789-1799). “O triunfo global do capitalismo é o triunfo de uma sociedade que acreditou que o progresso econômico repousava na competição da livre iniciativa privada, de comprar tudo mais barato no mercado e vender mais caro”. É notável que as mudanças ocorridas nos últimos trezentos anos não significaram nenhuma ruptura daquele sistema que sucedeu a cristandade feudal, o mercantilismo.

Aqui é conveniente lembrar do renascimento europeu, que passou para a esfera econômica como o mercantilismo na época das grandes navegações espanholas e portuguesas, dos descobrimentos geográficos, a expansão territorial etc., transformou-se no capitalismo. Essa transformação foi um evento gigantesco, provavelmente o evento mais impressionante da história da humanidade. Entrementes, a civilização baseada no capitalismo está gerando desequilíbrios fatais e assustadoras no habitat humano. Neste momento é necessário enumerar e elaborar os elementos essenciais do capitalismo global, modelador da modernidade que, além da sua dimensão econômica, tem sua antropologia, sua moral e seus princípios próprios.

Pe. Kurian

Mestre em Teologia Sistemática

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