Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 24 de Maio de 2019

Espiritualidade e religião

Jesus, a Boa Notícia para  século 21 (7)

Redação TerereNews
Foto: jesusejoaobatista jesusejoaobatista
jesusejoaobatista

João Batista anuncia a mudança radical

(1) Depois de examinar a introdução a história de Jesus de Nazaré nos quatro evangelhos nós passamos agora a averiguar o que os quatro têm registrado sobre o contexto histórico no qual o Nazareno deu início a sua atuação libertadora do seu povo. Os versículos 2-8 do primeiro capítulo de Marcos nos falam da pregação do João Batista que gerou uma expectativa esperançosa na sociedade que almejava ação direta do próprio Deus, visto que as estruturas tradicionais e sua maneira de exercer a autoridade, tinham se manifestado claramente incapazes de corresponder aos anseios do povo.

Para começar, o autor de Marcos introduz a nós João Batista, o mensageiro de Deus, a voz que clama no deserto pedindo mudança de vida, como cumprimento das profecias de Malaquias (3,1) e Isaías (40,3) que assinalavam a ação divina. Em meio a toda frustração que vivia o povo palestinense, o Profeta João aparece no deserto pregando a “conversão”, mudança de vida, como preparação para acolher as transformações radicais que um “enviado” de Deus, ainda desconhecido, efetuaria em breve.

É necessário enfatizar que João chamou o povo para o deserto, pois ele defendia um novo começo, para fazer os preparativos a acolher a nova aliança. Todos da região iam até ele, uma vez que eram cansados do sistema político-religioso vigente, este que na verdade, se encontrava bem longe dos ideais da primeira aliança que tinha constituído a nação, outrora. A primeira aliança entre Javé e o povo foi concluído no deserto. Agora, na sua incessante busca de salvação o povo dá ouvido a convocação de João e sai para o deserto de novo para arrumar o ambiente propício para a tão almejada redenção, ainda vindoura.

O batismo de água que João administrava, era apenas um rito de iniciação de todo um processo, que exigia o arrependimento para o perdão dos pecados. Era a condição que João punha para o povo poder acolher aquele, o mais forte, ainda por vir depois dele. Considera-se que João batizava nas cercanias da região por onde Josué com o povo israelita teria atravessado o Rio Jordão nos primórdios da história para tomar a cidade de Jericó, dando início a ocupação da terra prometida.

Profeta João levava uma vida de ascese severa, pelo que o texto nos conta. Ele batizava com água e se considerava apenas o servo daquele que, futuramente, batizaria com o Espírito Santo.

 

(2) No Evangelho de Mateus, temos a narrativa da pregação de João Batista no capítulo 3, 1-12. Quanto à sua descrição do personagem, o conteúdo de pregação de João, e a interpretação do seu ministério profético, os textos de Mateus e de Marcos concordam entre eles.

Entretanto, há acréscimos interessantes em Mateus. O primeiro deles que vamos destacar é a crítica do sistema opressora que João faz; essa crítica vai colorir a sua saudação dos membros da elite. Ao observar a presença dos fariseus e saduceus no meio da multidão que lhe procurava, o profeta chamou-os de: “Raça de cobras venenosas”! (Mt 3, 8). Ademais, ele desmonta a falsa segurança de “ser filhos de Abraão” em que a oligarquia se fundamentava para poder manter o sistema iníquo que amparava seus privilégios contra o povo.

Em segundo lugar, João chama o povo de volta para a Aliança, assim como fizeram todos os profetas “canônicos”. Isto, porque o momento que se vive tem um elemento de juízo definitivo iminente. Para ilustrar seu ponto o Profeta usa duas imagens. A do machado que já está colocado na raiz das árvores que não produzem frutos desejados a serem jogadas no fogo. A segunda é do pá que está na mão para começar a limpeza da eira no final da colheita que separa o trigo de palha. O trigo vai para o celeiro e a palha vai para o fogo que nunca acaba.

Podemos dizer que a definitividade do momento e radicalidade da mudança de vida exigida são realçadas com força incomum neste texto.

 

(3) Lucas tem um texto ainda mais extenso do que o de Mateus Lc 3,1-, para nos contar da preparação do ambiente que João Batista faz para receber o messias tão esperado. O autor contextualiza o acontecido com referências históricas adequadas. Na sua totalidade o texto de Lucas concorda com os de Mateus e Marcos no que nos diz sobre a pregação do Batista.

Enquanto o Batista em Mateus epiteta os membros da oligarquia de “raça de cobra venenosas”, em Lucas as mesmas palavras são dirigidas à multidão que ia ao seu encontro. A falsa segurança baseada no “ser filhos de Abraão” é desconstruída, e as imagens do machado pronto para derrubar as árvores infrutíferas e o pá na mão para separar o trigo de palha assinalam a definitividade da mudança radical iminente.

Além disso, João em Lucas aconselha a multidão que perguntou-lhe sobre o caminho da conversão, a partilha do que tem, contrariando o sistema capitalista  que praticava o acumulo irrestrito pelos poderosos, infernizando a vida dos mais fracos e pobres. Aos odiados e excluídos cobradores de impostos João pediu que não cobrassem nada mais do que era o estabelecido. Ele orientou os soldados a não abusassem o poder que tinham a sua disposição.

Aos que, na sua ansiosa busca do salvador tão almejado, imaginavam que João fosse o Messias, ele assegurou que ele não era o tão esperado por tantos. Seu batismo era com água enquanto o Messias prometido batizaria com o Espírito Santo e fogo. Lucas acrescenta a informação sobre a prisão cautelar que o rei Herodes tinha feito de João.

 

(4) Ao passar para falar do que o Evangelho de João nos contra sobre a fase preparatória que coube a João Batista na apresentação do Messias tão esperado, algumas observações são necessárias. Diferente dos sinóticos, que têm narrativas da sua atividade profética, o autor do Evangelho narra o testemunho que o Profeta no deserto dá. Em segundo lugar, a expressão “judeus” neste texto não refere ao povo judeu, mas a parte da população judaica que combatia ao Jesus. Os “judeus” questionavam sua autoridade para agir de jeito que ele agia, sua maneira de interpretar as leis e os costumes, diante das necessidades humanas. A manutenção da ordem estabelecida não era o critério de Jesus. A elite reconheceu bem cedo o perigo que Jesus representava ao sistema e trabalhou com desempenho extraordinário a fim de destruir Jesus e o que ele representava.

O Evangelho nos apresenta o testemunho de João Batista, nos versículos 19-28 do seu capítulo primeiro. Este trecho começa com os enviados de Jerusalém questionando a autoridade do Batista para começar um movimento com o rito do batismo. O profeta nega ser aquele, o esperado, e admite ser apenas aquele que aponta para o envidado de Deus, ainda desconhecido, porém já presente no meio da multidão que se reunia ao seu redor. Outro ponto de ênfase é que o Batista admite ser nem digno de desamarrar a correia das sandálias do messias.

Em conclusão podemos dizer que o ambiente das origens da atividade messiânica situa-se longe do centro do poder, de qualquer tipo, nas margens da sociedade que as instituições religiosas e políticas que procuravam dominar e manter controlado tudo.

Pe. Kurian

Deixe seu Comentário