Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 22 de Maio de 2019

Espiritualidade e religião

Jesus, a Boa Notícia para o século 21 (4)

Redação TerereNews
Foto: jesus-com-as-criancas jesus-com-as-criancas
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Emanuel, Deus conosco.
Vimos que Marcos elaborou um “evangelho” para mostrar como Jesus, o Filho de Deus, foi mal compreendido, perseguido e eliminado “na forma da lei”. O pequeno grupo de seguidores que ele tinha escolhido, os colaboradores que conviviam com ele, mesmo estes tiveram dificuldades na compreensão e conseguiram superar suas dúvidas somente após a ressurreição.
O Evangelho de Mateus, em seus dois primeiros capítulos, apresenta Jesus de Nazaré como Emanuel, que significa Deus conosco; é o rei messiânico da linha de Davi; é o salvador de toda humanidade. No entanto, ele é mortalmente perseguido desde seu nascimento. Para alcançar seu objetivo o autor elabora uma genealogia de Jesus nos primeiros 17 versículos do seu primeiro capítulo. A árvore genealógica é uma construção harmoniosa, contém três blocos de quatorze nomes dos seus antepassados em cada. O messias tem sua origem no povo que Deus instituiu ao chamar Abraão. O Cristo também é da linha do Davi, o fundador de uma dinastia real. É significativo que além da Maria de Nazaré, a esposa de José que é da linha davídica, quatro outras mães são inseridas nessa lista: 1) Tamar, nora de Judá que o engana e seduz (Gn 38); 2) Raab, a prostituta que escondeu os espiões (Js 2); 3) Rute a estrangeira moabita; e 4) Betsabéia, a adultera mãe de Salomão (2 Sm 11). É interessante comparar essa genealogia com a que Lucas tem (cf. Lc 3,23-38) e notar as diferenças e semelhanças.
A segunda parte do 1º capítulo, isto é, nos vv.18-25 se conta o drama do nascimento de Jesus. Maria, comprometida em casamento a José, engravidou-se antes das núpcias. Diante da situação José vive um momento decisivo. Ele tinha o direito de repudiá-la. Tal ação da sua parte condenaria sua noiva à morte por apedrejamento, de acordo com a lei (cf. Dt 22,22-29). Mas, José, um homem “justo” (Mt 1,19) pensou numa solução menos severa, a de abandona´-la secretamente. Enquanto isso, eis, um anjo do Senhor aparece-lhe num sonho com uma mensagem. O anjo explicou-lhe a gravidez da Maria como parte de um plano que Deus tem para a salvação da humanidade e que José deve colaborar na realização deste, quer dizer, acolher Maria como sua esposa sem medo, e assumir a paternidade legal do filho. José tomou coragem e no tempo certo chegou a realizar tudo o que o mensageiro de Deus lhe pediu: acolheu Maria na sua casa como sua esposa, não teve relações com ela até que nascesse o filho; ele assumiu a paternidade legal do menino que nasceu, dando o nome de Jesus (=Deus salva), um nome que tem significado muito parecido com o nome sugerido pelo anjo: Emanuel, Deus conosco. O autor interpreta esses acontecimentos como cumprimento da profecia de Isaías (cf. Is 7,14).
Na pessoa de José que passa momentos de dúvidas diante da gravidez precoce da sua noiva, representam-se as pessoas que compreendem a religião e a vida do ponto de vista legalista e individualista. Que Deus intervém na história humana a partir dos marginalizados que têm a vida ameaçada é o significado da situação da vida que o anjo comunica a José. Percebemos nas escrituras que Deus tem um plano para o mundo. Adequar-nos e encaixar-nos neste, é custoso; o sonho de José, a intervenção do anjo e a decisão final que José chegou a tomar, apontam para a conversão que o sensibilizou para a necessidade dos outros. José começa agir, a partir de agora, motivado por uma justiça que supera o que está escrito na lei e torna possível o nascimento de Messias. Sua denúncia da gravidez antes da hora, colocava em perigo duas vidas: a da mãe e a do seu filho!
No seu segundo capítulo o autor nos fala de algumas reações que este evento causou (cf. Mt 2,1-12). O nascimento do filho de Maria aconteceu durante o tempo do rei Herodes. De repente, vieram uns magos do Oriente para Jerusalém a procura do “rei recém-nascido dos judeus”. Isto porque eles foram motivados encaminhados por um sinal (a estrela) que assinalava a uma transformação radical na história humana. Sua chegada “abalou” o rei Herodes, extremamente ciumento pelo seu poder. Na verdade, ele era um idumeu escorado pelo império romano. Sua ira ao saber de um rival fez a cidade também sentir “abalado”. Frustrado na sua tentativa de identificar daquele que seria seu rival em Jerusalém, Herodes abriu uma consulta mais abrangente sobre o provável local do nascimento deste “novo rei”.
Os especialistas nas Sagradas Escrituras indicaram a cidade de Belém como o local do nascimento do novo rei “pastor” prometido, baseando-se no profeta Miqueias (Mq 5,1-3). Então Herodes mandou os magos a Belém instruindo-os a reportar a ele sobre o local onde o recém-nascido estaria. Viajaram os magos, alegres agora, pois ao sair de Jerusalém reencontraram sua estrela-guia; chegaram ao encontro daquele que procuravam, ofereceram suas homenagens e voltaram para suas terras. Só é que foram avisados em sonho para não voltarem a Herodes, seguiram outro caminho e foram embora. É preciso comentar sobre o comportamento dos sacerdotes e doutores da lei que tinham a informação, mas foram incapazes de ação: a de se alegrar ao saber do nascimento do salvador, pois eram acomodados sem querer ler os sinais dos tempos que nos revelam os planos de Deus, visto que isto implicaria contrariar os esquemas dos atuais mantenedores do poder. Todavia não basta saber quem é o Messias; é necessário reconhecê-lo e aceitá-lo.

Na segunda parte deste capítulo o autor nos fala sobre a infância de Jesus (Mt 2,13-23); essa narrativa pode ser vista como um novo êxodo que dá início a nova história. Depois que os magos partiram, o anjo do Senhor apareceu de novo a José em sonho e o pede para fugir com sua família para o Egito, pois o rei Herodes procurava matar o menino. José fugiu para o Egito e ali permaneceu até a morte de Herodes. O autor interpreta o acontecido à luz do que o profeta Oseias tinha dito: “do Egito eu chamei meu filho” (Os 11,1).
Voltando um pouco para trás, Herodes, quando percebeu que foi enganado pelos magos, mandou matar todos os meninos de dois anos para baixo na região de Belém, imaginando que assim eliminaria seu rival. A chacina dos inocentes gerou uma situação que o autor interpreta citando o lamento de Raquel referido no livro do profeta Jeremias 31,15.
Morreu Herodes. Aparece de novo o anjo do Senhor para orientar José. Ele volta para sua terra e se estabelece em Nazaré de Galileia, a periferia de Israel onde Jesus começará sua atuação libertadora. Percebemos que José é um homem aberto a iluminação divina e disposto a fazer a vontade de Deus. Nos momentos atordoados essa sua capacidade fez com que ele tomasse as decisões certas para o plano de Deus desabrochar na história.
Mostrar que Jesus é o novo Moisés pertence às intenções teológicas do autor do Evangelho de Mateus como vimos acima. Enquanto no passado Moisés tinha fugido “do” Egito, agora Jesus foge “para” o Egito, visto que a terra prometida se tornou insuportável pela violência e opressão praticadas lá. Jesus dá início a nova história seguindo um trajeto semelhante ao de Moisés.

Autor: Padre Kurian.

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