Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 16 de Outubro de 2019

Internacional

Evelyn foi violada, perdeu o bebê e foi condenada a 30 anos por aborto

Expresso – Portugal
Foto: Divulgação / Assessoria evelynjpg.jpg

Evelyn Hernández levava uma vida de menina como tantas outras. Vivia na pequena comunidade rural de El Carmen, em Cuscatlán, até que um dia foi violada (e voltaria a ser várias vezes) e a sua história mudou para sempre. Com apenas 17 anos, guardou aquele segredo, que se ia repetindo, pois supostamente o agressor era membro de um gangue e terá ameaçado matar a sua mãe. Se a cabeça da adolescente tinha de aprender a conviver com aquela tormenta, o corpo começava a enviar-lhe sinais. Evelyn confundiu sintomas de gravidez com dores no estômago e o seu fado, sem ela sonhar, começava definhar.

Num dos primeiros dias de abril de 2016, enquanto tomava banho, acabou por dar à luz um bebé de oito meses já sem vida. Ela perdeu a consciência e uma quantidade importante de sangue. Foi enviada para o hospital. A polícia encontrou, depois, o corpo e a autópsia revelou que o bebé tinha 32 semanas de gestação e que não resistiu a uma pneumonia adquirida, ou seja, uma infeção aguda do tecido pulmonar, conta este artigo do jornal “El País”. Os especialistas não souberam dizer se o feto morreu dentro de Evelyn ou já depois do nascimento precoce.

El Salvador, conservador e católico, é um dos países mais severos no que toca a penalizar abortos, ignorando a natureza das gravidezes e até se foram detetadas complicações durante as mesmas - os riscos de vida da mãe e as deformações do feto são igualmente desvalorizadas. É implacável. E pode ir até aos 40 anos de prisão. Evelyn foi condenada, em julho de 2017, a 30 anos de prisão, acusada de homicídio por aborto. A juíza não acreditou que a jovem não sabia que estava grávida. “Eu não queria matar o meu filho”, disse Evelyn em tribunal. Um grupo ativista que combate esta lei salvadorenha prometeu recorrer da decisão. Afinal, acabava de ser condenada “sem nenhuma prova direta”, defendeu o grupo. “A condenação é injusta e vamos apelar. Este caso coloca em evidência o preconceito que existe e com o qual atua o sistema judicial.”

ESPERANÇA RENOVADA

Em fevereiro de 2019, já com 20 anos e três deles passados atrás das grades, o recurso saiu vitorioso, garantindo um outro julgamento, livrando-se assim da pena de 30 anos. A angústia da espera seria vivida em liberdade, em casa. O caso andará à volta de Evelyn ter dado à luz um bebé sem vida ou não.

De acordo com várias organizações de direitos humanos daquele país, conta este artigo da BBC, existem pelo menos 20 mulheres em cativeiro por causa da mesma lei, algumas delas condenadas a 40 anos de prisão depois de terem experienciado abortos espontâneos, problemas na gravidez ou casos como o de Evelyn. Esses ativistas terão conseguido libertar outras 30 mulheres durante a última década.

As Nações Unidas entraram em campo em 2017, apelando a El Salvador para emitir uma moratória sobre a aplicação daquela lei do aborto e a rever todos os casos das mulheres condenadas e presas por crimes relacionados com a interrupção voluntária da gravidez, conta este artigo do “Guardian”. Mas nada mudou.

“É uma sociedade muito religiosa e fortemente evangélica”, explicou ao diário britânico Paula Ávila-Guillén, diretora do Women’s Equality Center na América Latina. “Este caso será o primeiro a ser julgado depois de o novo Presidente [do país] ter assumido o poder”, diz, sugerindo que assim será possível compreender o rumo que terá El Salvador nos próximos tempos. Nayib Bukele, de 37 anos, prometeu "uma nova era", colocando na mira a violência dos gangues e a corrupção.

“Estamos convencidos que a Evelyn é inocente”, disse à Reuters Ana Martínez, uma das advogadas da jovem. A lei do aborto está em vigor no país desde 1997 e visa até aquelas que foram violadas e sofreram incesto. “Esperamos que a lei e a justiça ganhem neste país.”

O julgamento de Evelyn Hernández está agendado para a próxima segunda-feira.

EXPRESSO

Deixe seu Comentário