Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 23 de Setembro de 2019

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Domingos de Ramos - por: Pe. Kurian

Redação TerereNews
Foto: domingoderamos-tererenews domingoderamos-tererenews

Este ano o Domingo de Ramos cai no dia 25 de março. A liturgia deste dia marca o início da Semana Santa. Tradicionalmente no dia 25 de março celebrava-se a Solenidade da “Anunciação do Senhor”. No dia 24 de março também se faz a memória do Mártir Oscar Romero, o Arcebispo de San Salvador (El Salvador) assassinado por um atirador do “esquadrão de morte”, ligado ao Exército Salvadorenho, enquanto presidia a celebração Eucarística. Com tudo isso, as solenidades litúrgicas deste domingo têm riquíssimas ressonâncias para a vida cristã.

 

(1) A entrada messiânica de Jesus de Nazaré em Jerusalém foi um evento significativo no seu ministério. A memória desta está preservada em todos os quatro evangelhos(Mc 11,1-11; Mt 21, 1-11; Lc 19,28-38; Jo 12,12-16). Era uma prática comum daquele tempo: o conquistador entrar numa cidade conquistada, desfilar-se diante do povo numa manifestação da sua glória e poder. Mas a entrada que o Nazareno efetuou foi contrastante. Para começar, ele empresta um jumentinho como sua montaria, enquanto o rei convencional montava no seu cavalo, animal de guerra. Depois, não são as elites nem os poderosos que prestigiam a procissão de Jesus, mas os camponeses pobres e humilhados na sua maioria. Todos os quatro textos evangélicos evidenciam a intenção teológica predominante que é interpretar o rabino itinerante da Galileia como o Messias davídico, porém paradoxalmente contrariando as expectativas populares.

Eram tempos muito parecidos com os nossos. Todo mundo sentia a necessidade de mudanças profundas, pois de jeito que estavam as coisas satisfazia ninguém. Também se reconhecia a incapacidade humana para efetuar as mudanças necessárias. Só Deus agindo diretamente realizaria a mudança acertada. Este desejo intenso cristalizou-se numa figura de “Messias” vindouro. Quanto a essa figura, na verdade, havia uma multiplicidade de imagens e opiniões prevalentes. No entanto, como já vimos, Jesus, o galileu não correspondeu a nenhuma figura do imaginário popular!

 

(2) A solenidade da Anunciação celebrada no dia 25 de março (transferida para o dia 09 de abril este ano por ela coincidir com o Domingo de Ramos) tem sua fundamentação na Sagrada Escritura, principalmente, no Evangelho de Lucas 1,26-38. É um texto muito bem redigido e extremamente popular que comunica muito bem a intenção teológica de apontar para a origem divina de Jesus de Nazaré. Uma leitura fundamentalista do texto vai gerar perplexidades, porém recentes estudos na linguística, felizmente, indicam caminhos para uma compreensão realista desta Palavra de Deus que vem a nós nas palavras dos homens.

 

(3) O martírio do Dom Oscar Arnulfo Romero y Goldámez (1917-1980) ocorreu no meio da guerra entre o imperialismo de direita (EUA) e o de esquerda (URSS). Os anos imediatamente após o Concílio Vaticano 2 foram de extraordinária vivacidade para as comunidades dos seguidores de Jesus de Nazaré, de maneira especial para as da América Latina. Começando na Assembleia das Conferências Episcopais latino-americanos (CELAM) em Medellín  (Colômbia 1968) a recepção inculturada dos ensinamentos do Vat2 levou a igreja fazer “a evangélica opção preferencial pelos pobres”.

Colocar-se ao lado dos explorados e marginalizados tem despertado a ira das elites aproveitadoras e elementos obscurantistas desde sempre. Para o povo salvadorenho crucificado tradicionalmente a segunda metade do Século 20 foi mais excruciante ainda. Agentes de pastoral e todos aqueles que resistiam a opressão das elites foram considerados “comunistas” e eliminados brutalmente pelos esquadrões da morte treinados e equipados pelos EUA e o exército salvadorenho.

Mártir Romero foi nomeado  para o Arcebispado de San Salvador (1970) por ser considerado moderado ou até mesmo conservador nas questões sociopolíticas. Não demorou muito, a brutalidade contra os humildes, humilhados e fragilizados, a violência praticada para com os que se organizava resistência à injustiça, levou o Arcebispo tomar uma decisão ponderada – a de colar-se ao lado do povo massacrado de El Salvador, o que lhe custaria a sua própria vida mais tarde!

Nos anos em seguida Dom Romero se destacou pelo seu engajamento da defesa da vida humana numa situação muito complexa, em que paixões ideológicas sacrificavam vidas como se essas não valessem nada. Ele se tornou a voz dos sem voz do seu país. Em outubro de 1979 houve um golpe militar, promovido pelos EUA, que tinha perdido a guerra contra o povo vietnamita em 1975. Na América Latina, seu mercenário em Nicarágua, o ditador Anastásio Samoza Debayle foi derrotado pelos Sandinistas em 1978. O império capitalista não queria outra derrota em El Salvador e promoveu o golpe militar. Na carnificina que se seguiu, inúmeras pessoas, inclusive agentes de pastoral, religiosos e presbíteros, foram brutalmente eliminados. Dom Romero, com intuito de para esta chacina insensata, pediu aos EUA não fornecer mais armas para este conflito fratricida e apelou às forças armadas salvadorenhas para não matarem seus próprios irmãos. O destino do Dom Oscar Romero foi selado!

Ao fazer memória de tantos eventos no Domingo de Ramos de 2018 os seguidores de Jesus no Brasil estão diante dos desafios que exigem perspicácia e ação corajosa para resistir às forças do mal que promovem ódio, exclusão e violência de todos os tipos imagináveis numa sociedade que se encontra numa encruzilhada…

Pe. Kurian

Mestre em Teologia Sistemática

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