Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 18 de Julho de 2019

Variedades

Confira resenha do livro As margens do paraíso, de Lima Trindade

Correio Brasiliense
Foto: Divulgação / Assessoria confirajpg.jpg

O romance de Lima Trindade (As margens do paraíso) não é somente sobre o paraíso perdido do seu autor, ou da minha geração, anterior a dele, mas sobre a perda de um país que teve a Esperança como programa de nação. O Brasil da bossa nova, do Cinema Novo, do Teatro de Arena e do Oficina, da construção de um futuro interrompido pelas trevas que se seguiram e que parecem redivivas. Essa montanha-russa de abismos que é a nossa história.
Tendo como pano de fundo a construção de Brasília, o escritor se revela um exímio observador da alma humana, na elaboração de riquíssimas linhas de personagens com distintas e sutis psicologias de diferentes classes sociais, projetos de vida e objetivos antagônicos. Como fez Lúcio Cardoso em seus romances de introspecção.
A composição cirúrgica de cada universo, a linguagem específica de cada personagem, na atmosfera concebida com o rigor dos grandes escritores, no conluio dos acontecimentos que vão se entrelaçando no desenrolar da história que nos conta. Como num filme de Robert Altman, essas linhas vão se cruzando e se esbarrando, reveladoras e surpreendentes, para desaguar num inesperado final.
A descrição cinematográfica e detalhista dos ambientes é uma das marcas de seu estilo proustiano editado com a devida dinâmica contemporânea: “Começa a chover. O barracão é rústico. O pinho da madeira apresenta frinchas. O teto é de alumínio. A base fica a um metro de altura do chão. Há cobras, escorpiões, e a pior e mais ameaçadora das pragas: o barbeiro.”
E ainda: “O céu estava em paz. Nenhum pássaro ou nuvem. Pequenininha, a mancha marrom que era a nossa casa pulsava na paisagem e sobressaia na elevação, expulsando, pelo teto, um fio de fumaça esbranquiçada.” (....) “Apreciei cada detalhe. O triângulo de pelos escuros e seu delicioso odor. Do sofá eu via o quadro de cores fortes e objetos que derretiam no ar.”
Observação pictórica que vai estimulando o leitor a convergir para aquilo que vai documentando e indicando, e descrevendo os gestos — como numa mise-en-scène bem dirigida:  “Ao levantar-se da poltrona, um dos botões da camisa de Lousada cedeu, dando mostra ao tecido liso e brilhoso da barriga. Os ombros continuavam frouxos. Ele estendeu o braço e apertou a mão de Mauro. Quando os dois ultrapassaram o batente da porta, puxou a gaveta da mesa, retirou uma caixa suja de metal, tirou um charuto, mordeu a ponta, cuspiu, conteve o pequeno acesso de tosse com uma das mãos, riscou um fósforo, sentiu o aroma delicioso do filete de fumaça que riscava o ar, inspirou e soltou uma longa baforada que o ventilador espalhou para o centro da sala formando tênues desenhos abstratos.” — Aqui, sugerindo a luz como um diretor de fotografia faz na composição das cenas de um filme.
E novamente: “Porém, numa fração de segundos, a lâmpada suja do bar piscou um vermelho acanhado para paulatinamente retomar a sua luminescência costumeira.”
Somadas às observações da luz e dos gestos, como numa decupagem de planos fechados e de panorâmicas, envolvente exercício de apurada e elegante literatura, junta a beleza dos planos gerais — onde nem um gato escapa da composição de seus quadros, à maneira de Goeldi em suas gravuras de ambientações noturnas: “Eram ainda duas e quinze quando o táxi de Rubem chegou à porta do palácio de tábuas. O neon estava apagado e um gato rondava a porta entreaberta. Vista desse modo aparentava nada mais do que uma modesta pensão. Por trás de uma roseira surgiu um garoto sem camisa. Armado de estilingue. Ele se ajoelhou em silêncio e fez mira. Do interior, ouvia-se o zunido animado de um rádio. Rubem disse olá. O gato se assustou e fugiu. Tuim disparou sua arma atrasado e tirou uma lasca de madeira com o tiro da pedra.”
Saborear a sofisticada construção desse romance, como uma novela policialesca de cunho social, no campo minado de surpresas de sua narrativa, vai nos fazendo abandonar toda e qualquer esperança —  tanto pelo que nos acena a subjetividade dos seus personagens em transe quanto na radiografia cruel dos bastidores desses heróis anônimos, os pobres construtores da utopia que a cada página desaba impiedosamente sobre nós — pobres leitores, hipnotizados pelo poder de sua escrita.
O paraíso — como o sonho — acabou. Ficamos nas suas margens. À espera que a arte, como esta de Lima Trindade, nos devolva algum prazer.
E nos salve.
*Luiz Carlos Lacerda é cineasta
Luiz Carlos Lacerda*

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