Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 18 de Julho de 2019

Economia e Negócios

Carlos Thadeu Gomes: ''BNDES tem de cortar custos e fazer um PDV''

Correio Braziliense
Foto: Divulgação / Assessoria carlos20thadeu20gomesjfif.jpg

Eleito conselheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o economista Carlos Thadeu de Freitas Gomes diz que o novo presidente da instituição, Gustavo Montezano, terá que fazer um amplo processo de enxugamento de custos, que passará pelo corte de pessoal. Na avaliação dele, pelo tamanho que o banco terá daqui por diante, não há necessidade de um quadro de mais de 2,5 mil funcionários, como o atual. “O BNDES terá que fazer um programa de demissão voluntária (PDV). Apesar de o nível dos empregados ser muito bom, não se justificam tantas pessoas”, afirma.
Para Freitas Gomes, que já dirigiu o BNDES durante o governo Temer, a demissão de Joaquim Levy da presidência do banco foi um processo natural de qualquer governo. Ele acredita que Levy não teve a agilidade que o Palácio do Planalto esperava nas ações do BNDES, ainda que seja um excelente profissional. A mesma pressão recairá sobre Montezano, escolhido pelo ministro Paulo Guedes para comandar o banco. “O novo presidente terá que reduzir o tamanho do BNDES. Em 2014, a instituição emprestava R$ 200 bilhões por ano, agora, as operações não passam de R$ 70 bilhões”, afirma.
O economista é enfático em dizer que não há caixa-preta no BNDES, como afirma o presidente Jair Bolsonaro, e ressalta que o banco tem condições de devolver o dinheiro que deve ao Tesouro Nacional — mais de R$ 200 bilhões. Mas o cronograma dos repasses deverá ser bem pensado, sobretudo se a instituição perder parte dos repasses do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), como está previsto na reforma da Previdência. O BNDES já devolveu R$ 300 bilhões ao Tesouro. “Não fosse isso, a dívida pública seria muito maior do que é”, frisa. Freitas Gomes diz que o Brasil só voltará a crescer depois da reforma da Previdência. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Como o senhor viu a demissão de Joaquim Levy do BNDES? O que mudará na gestão do banco?
Foi um processo natural de governo. E creio que o BNDES não mudará no essencial. É importante destacar que o Levy tem muita experiência e conhece muito bem as operações internacionais. Mas faltou definir o tamanho do banco hoje e no futuro. O BNDES perdeu competitividade com TLP (Taxa de Longo Prazo), que rege todos os empréstimos concedidos pela instituição. Como hoje existe muita liquidez no sistema financeiro, os bancos, incluindo os privados, estão prontos para emprestar recursos a longo prazo, principalmente por meio de debêntures. O BNDES ainda é bastante eficiente em financiar infraestrutura, de que o país precisa tanto. Esse é um caminho a ser seguido pelo banco. Provavelmente, o banco ficará menor, como já está acontecendo. É importante reduzir mais rapidamente os custos fixos.

Reduzir o quê? Pessoal?
Sim, o BNDES tem um quadro muito grande de funcionários para o tamanho que a instituição terá daqui por diante. São mais de 2,5 mil pessoas, que, se ressalte, são muito qualificadas. Mas não cabe mais tanta gente lá. É preciso fazer um programa de demissão voluntária (PDV). Isso dará maior agilidade à instituição. Em 2014, o BNDES emprestava mais de R$ 200 bilhões por ano. Agora, são R$ 70 bilhões anuais. Não vai passar muito mais disso.

O novo presidente do BNDES, Gustavo Montezano, está preparado para assumir esse desafio?
Espero que sim. E ele terá que continuar reduzindo os custos fixos do BNDES, além de focar no programa de privatização, como já foi anunciado. Também o banco terá de se voltar para as pequenas e médias empresas, que não são atendidas pelo mercado bancário tradicional.

Um dos motivos para a demissão de Levy teria sido a demora do BNDES em devolver recursos para o Tesouro Nacional. O banco tem caixa para isso?
O BNDES está capitalizado. Já devolveu cerca de R$ 300 bilhões ao Tesouro. Inclusive, não fosse essa devolução, a dívida pública, de cerca de 78% do PIB (Produto Interno Bruto (PIB), seria muito maior. Certamente, o novo presidente do banco definirá um cronograma para a devolução dos recursos mais rapidamente. Evidentemente, na atual conjuntura, em que se discute tirar recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o principal funding do BNDES, fica difícil precisar os valores que serão devolvidos dentro do que já estava programado.

Outra razão para a demissão de Levy seria a de que ele não abriu a caixa-preta do BNDES. O banco tem caixa-preta, como alardeia o presidente Jair Bolsonaro?
As operações do BNDES são muito transparentes, refletindo a capacidade de seus funcionários que hoje se equiparam aos do Banco Central. Não há caixa-preta no BNDES.Todas as operações do banco estão disponíveis em seu site, seguindo as legislações bancárias e do mercado de capitais.No passado, falavam da caixa-preta do Banco Central, que nunca houve. O que há é falta de conhecimento para entender as operações. Na CPI no Senado sobre as operações internacionais do BNDES, fui designado, como diretor Financeiro do banco, pelo então presidente da instituição, para explicar as razões para a concessão de financiamentos a países que, agora, estão inadimplentes. Relatei que o BNDES foi o intermediário do repasse dos recursos. Não é justo arcar com as escolhas que foram feitas na época pelo governo.

É possível esperar desembolsos maiores do BNDES a partir de agora para estimular o crescimento econômico?
Não creio. Infelizmente, neste momento, não há demanda. E reforço: o banco tem que ter o tamanho que tem hoje. É melhor deixar o mercado de crédito, neste momento, para os bancos privados, que estão cheio de dinheiro para empestar. Basta, para isso, que confiança volte ao país.

Quando é que o Brasil vai crescer mais forte?
Infelizmente, teremos que esperar mais um pouco. Neste ano, não crescerá nem 3%, nem 4%, como o mercado previa no fim de 2018, após as eleições. O avanço do PIB ficará abaixo de 1%, como já prevê a maioria dos analistas. O Brasil tem uma capacidade ociosa enorme e não tem condições de se fazer investimento rapidamente. Então, a economia vai demorar para se recuperar. E é preciso tomar cuidado para o Brasil não quebrar em reais.

Como assim? É por conta da dívida interna?
Sim. O Brasil pode quebrar em reais. O Brasil já quebrou várias vezes, em dólares. Agora, pode quebrar em reais ou deixa voltar a inflação. Essas são as duas escolhas que estão colocadas se o país não fizer o dever de casa e arrumar as contas públicas. Do ponto de vista externo, o Brasil está muito bem. Não tem dívidas em dólar e conta com mais de US$ 380 bilhões em reservas internacionais. Mas a dívida pública é um problema e vai continuar crescendo mesmo com a reforma da Previdência.

O senhor é a favor de mudanças na Previdência? Por quê?
Sim, com certeza. Não há saída. Se o Brasil não fizer a reforma será terrível. A dívida pública bruta está perto de 80% PIB e será muito difícil ser financiada com a fuga em massa dos investidores. O resultado, nesse quadro caótico, será a volta da inflação.

Existe o risco de hiperinflação?
Sem a reforma da Previdência, sim. E ela pode vir de forma mais rápida do que no passado. É isso é que é perigoso. Como já tivemos hiperinflação de 1975 até os anos 1990, demoramos quase 15 anos para chegar naquelas taxas absurdas. Foram 21 anos para chegar aos 100% ao ano. Agora, pode levar apenas dois anos. Mas se o Brasil fizer a reforma, tudo dará certo.

Como o senhor avalia as trapalhadas do governo, que têm criado um clima de apreensão entre os agentes econômicos?
Governo sempre é um problema. Tenho certeza de que, apesar do presidente Jair Bolsonaro, o Brasil vai dar certo. Os ruídos são normais, independentemente de quem está no Palácio do Planalto. O mais importante é a parte econômica. E não adianta fazer nada para incentivar a economia agora, é rasgar dinheiro, jogar dinheiro fora. Primeiro, tem fazer reforma da Previdência. Se ela passar no Congresso, a economia vai se recuperar rápido.

Até quando o senhor acredita que o ministro Paulo Guedes aguenta no governo?
Ele não é de jogar a toalha. Vai até o final (do governo), a não ser que não possa fazer o que tem que fazer. Ele fica até o momento em que ele tiver certeza. Hoje, pode não dar certo (a reforma). Amanhã, pode dar. Ele tem que ter paciência para isso. Agora, o Paulo Guedes nunca vai ser o Maílson da Nóbrega (que foi ministro da Fazenda de José Sarney e responsável pelo Plano Verão, quando a inflação chegou a 80% ao mês no início de 1989).

Por quê? Não terá coragem para fazer a política do feijão com arroz de Maílson?
Ele não é homem de segurar as coisas (para fizer no ramerrame), mas de fazer, como o (Mário Henrique) Simonsen, que saiu do governo (militar) quando viu que não podia fazer mais nada. Se conseguir fazer, tudo bem. Se não, ele sai. É uma grande vantagem para o governo ter um homem capacitado como o Paulo Guedes. Ele tem o nome dele em jogo, e é bom para ele esse tipo de desafio.
Rosana Hessel 
Vicente Nunes
 

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