Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 15 de Outubro de 2019

Internacional

Brexit direciona holofotes para ritual mais temido por primeiros-ministros

Folhapress
Foto: Divulgação / Assessoria bandeiras20da20ue20e20reino20unidojpg.jpg

Margaret Thatcher armava-se de uma pilha de documentos para intimidar seus opositores. Tony Blair, ao contrário, confiava praticamente apenas nos seus poderes de oratória. Já David Cameron não escondia o incômodo com o compromisso semanal de responder a perguntas de deputados no Parlamento. Chegou a compará-lo a um show de "Punch & Judy", popular teatro de marionetes britânico em que os personagens se estapeiam o tempo todo.
O apelido pegou e virou título de um livro lançado no ano passado. Em "Punch and Judy Politics" (editora Biteback Publishing, 368 págs., R$ 105,14), dois ex-assessores do Partido Trabalhista destrincham um dos rituais mais peculiares da política do Reino Unido, o PMQs (sigla em inglês para "perguntas para o primeiro-ministro").
A interminável novela do brexit apresentou esse evento, que em muitos momentos se parece com um show de comédia stand up, a uma audiência global.
Não é por acaso que Ayesha Hazarika, uma das autoras do livro, é também comediante. Durante seis anos, ela e o outro autor, o conselheiro político Tom Hamilton, tinham a função de preparar líderes trabalhistas para o embate com o conservador Cameron.
O PMQs, afinal, não é apenas um debate sobre temas da agenda política, mas também um duelo de frases mordazes, piadas e momentos de pura quinta série.

"Os partidos políticos usam o PMQs para testar e dar forma às suas mensagens políticas e ataques, que então são usados de maneira mais ampla fora do Parlamento", afirma Hamilton, em entrevista à reportagem por e-mail.

Mesmo na era do Twitter, em que políticos podem se manifestar de maneira instantânea, o ritual de perguntas segue sendo um evento importante para a democracia, defende o autor.

"Há mais do que insultos e piadas. Também revela muito sobre sucessos e fracassos de políticas públicas, pontos fortes e fracos do governo e da oposição e o caráter de nossos líderes", diz ele.

Mas é inevitável que os momentos mais estridentes chamem a atenção, sobretudo porque o embate é transmitido pela televisão.

São frequentes as cenas de deputados abanando folhas de papel, apontando o dedo indicador para os adversários e gritando "hear, hear!" (literalmente "ouçam, ouçam", mas na prática algo como "toma!", ou o ainda mais coloquial "chupa!").

Em meio à balbúrdia, que atingiu níveis inéditos desde o referendo do brexit em 2016, os apelos cada vez mais enfáticos por "ordem, ordem!" do presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, tornaram-no uma celebridade nas redes sociais.
"A transmissão pela TV prejudicou a imagem dos deputados, porque mais pessoas os veem gritando e se comportando de forma esquisita e infantil", afirma o autor.
Em 2010, o próprio Cameron fez piada com o clima reinante. Ao parabenizar o então líder trabalhista, Ed Miliband, pelo nascimento de seu filho e saudar sua volta ao Parlamento depois de duas semanas de licença, ironizou: "Barulho, bagunça, caos, tentar fazer as crianças calarem a boca... Tenho certeza de que ele [Miliband] adorou passar duas semanas longe disso”.

Governo e oposição se uniram numa gargalhada ruidosa. Embora os momentos de questionamento ao primeiro-ministro existam desde o final do século 19, foi apenas nos anos 1960 que se tornaram uma regra: primeiro como duas sessões semanais de 15 minutos cada, depois como uma de meia hora, sempre às quartas-feiras, ao meio dia.
O ambiente parece caótico, mas tem regras. Os líderes do governo e da oposição ficam frente à frente, separados apenas por uma mesa.

Ministros e o comando opositor sentam-se na primeira fileira, o "frontbench". O baixo clero fica nos bancos de trás, e por isso são chamados de "backbenchers". Não há lugar para todos, então alguns deputados se espremem de pé, contribuindo para o clima confuso.
Parte das perguntas é submetida de antemão e portanto conhecida pelo premiê. Mas há também as de improviso, e deputados que querem fazer questionamentos tentam chamar a atenção do "speaker", nome oficial do presidente da Câmara, levantando-se e sentando ao fim de cada resposta.

O líder da oposição tem direito a seis perguntas, e tenta sempre pegar o chefe de governo no contrapé. Todos ali sabem que os principais momentos, sobretudo as gafes, serão repetidos à exaustão nos telejornais imediatamente após o fim da sessão.
Por isso, segundo Hamilton, 100% dos primeiros-ministros relatam as horas anteriores ao PMQs como algumas das mais estressantes de suas gestões. Até Tony Blair, conhecido por seu ar cool, tinha minicrises de pânico enquanto repassava possíveis temas com assessores.

"O primeiro-ministro tem que responder perguntas sobre tudo, então ele tem que saber de tudo", diz o autor. "Isso acaba assegurando que o centro do poder esteja informado sobre o que está acontecendo. É um mecanismo de transparência do primeiro-ministro com a sociedade, mas também da própria equipe de governo junto ao primeiro-ministro".
Na mãe de todos os Parlamentos, a chegada de Boris Johnson ao cargo de primeiro-ministro é mais um ponto a chamar a atenção. Em tese, seu estilo excêntrico e seu palavreado pouco diplomático podem ajudá-lo.

Mas Hamilton alerta que ele poderá perder credibilidade se encarar tudo apenas como um grande circo. "PMQs não é apenas fazer piada e nocautear o adversário. É preciso ter substância também, e um forte comando dos detalhes", afirma.

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