Campo Grande - Mato Grosso do Sul, 24 de Maio de 2019

Espiritualidade e religião

A boa notícia para o século 21

Redação TerereNews
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A boa notícia para o século 21. (2)
Algumas observações iniciais

Antes de começar a examinar o texto do Evangelho de Marcos é necessário fazer algumas observações iniciais. A ordem normal dos evangelhos nas Bíblias é: Mateus (Mt), Marcos (Mc), Lucas (Lc) e João (Jo), porém nós vamos começar o nosso estudo com Marcos, o texto mais breve entre os quatro. É que à luz das investigações científicas feitas nos últimos dois séculos, hoje há um consenso entre os estudiosos que o Evangelho de Marcos foi o primeiro a ser escrito.
Todos os quatro evangelhos nos contam a história da vida pública de Jesus de Nazaré, sua paixão, morte e a ressurreição. Cada evangelho representa a tradição da comunidade onde os episódios da vida de Jesus foram contados e recontados até adquirir a forma e a ordem atuais. Até mesmo uma leitura bem rápida mostra que os primeiros três evangelhos têm uma grande parte de matéria em comum, enquanto o quarto (o de João) é bem diferente. Este fenômeno foi minuciosamente investigado como “a questão sinótica”, o que deu origem a diversas hipóteses sobre o processo da redação final dos textos evangélicos que temos. E os primeiros três são conhecidos como “sinóticos”, quer dizer, dá para lê-los “num olhar só” pela semelhança das narrativas.
Hoje temos quatro os evangelhos “canônicos”, quer dizer, estes quatro são normativos para a fé dos seguidores de Jesus de Nazaré. Existe também um grande número de “evangelhos apócrifos” de origem nos primeiros séculos; a autoria destes foram atribuídos a pessoas como Pedro, Tomé, Maria Madalena etc., entre outros. Aqui é necessário mencionar que o processo da formação do Novo Testamento iniciou-se no ano 150 da Era Comum (E.C.) e completou-se no terceiro Sínodo de Cartago no ano 397 E.C. O trabalho de determinar “a canonicidade”, isto é, para a comunidade chegar a decidir se um escrito poderia ser aceito como normativo para a fé foi um processo árduo, criterioso e doloroso até.
No passado recente, a renovação da vida cristã que o Concílio Vaticano II (1962-65) promoveu resultou num desabrochar extraordinário nos estudos bíblicos que têm beneficiado imensamente as comunidades cristãs, as da tradição católica principalmente. O grande número das traduções do texto bíblico (de original Hebraico, Aramaico e o Grego) que foram feitas nas últimas décadas são frutos desta renovação eclesial. Entre as traduções recentes, a Bíblia Pastoral, a tradução da CNBB, Bíblia de Jerusalém, Bíblia do Peregrino, a Tradução Ecumênica da Bíblia, etc. merecem menção, pois oferecem ferramentas excelentes para seus leitores compreenderem melhor a Palavra de Deus.
A Bíblia Pastoral é fruto de um “viver a Palavra de Deus” que aconteceu aqui no Brasil começando na segunda metade do século passado. Este “viver a Palavra” transformou a sociedade brasileira, que se abriu para a democracia participativa e colocou o país no caminho da construção de uma sociedade igualitária que corresponde ao “Reino de Deus” que Jesus instaurava, de acordo com os textos dos evangelhos sinóticos. A Nova Bíblia Pastoral (2014) passou por uma revisão minuciosa da Edição Pastoral (dos anos de 1991). A revisão incorporou os frutos das pesquisas bíblicas que deram passos largos nas últimas décadas, como vemos nas suas introduções, notas de rodapé, além de usar uma linguagem muito moderna e acessível.
O autor do Evangelho de Marcos quer nos ajudar a entender a pessoa e a práxis de Jesus de Nazaré para podermos chegar a tomar uma decisão quanto a nosso seguir o Filho de Deus (cf. Mc 1,1). Para alcançar seu objetivo ele conta num primeiro momento, da atividade de Jesus fez na região de Galileia, e no segundo momento, fala da sua subida para Jerusalém e o que aconteceu lá com ele. Mesmo na primeira parte fica evidente que Jesus, o Cristo, não é compreendido pelas lideranças políticas e religiosas, pelas multidões, sua própria família ou seus discípulos, porém o final é paradoxal: na hora da sua morte na cruz o centurião romano que supervisionou a crucificação, vendo o expirar, proclama: “Realmente este homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). Encerra-se o Evangelho com alguns poucos que acompanharam-no até o fim, recebendo a tarefa de comunicar essa “Boa Nova” que Jesus de Nazaré é, ao mundo inteiro.
Aqui é necessário introduzir os outros evangelhos também, porque nós vamos examinar os paralelos do que Marcos nos conta nos outros três. O autor do Evangelho de Mateus quer mostrar que Jesus de Nazaré conduz o povo de Israel ao ponto alto da sua história; este Jesus surge do povo de Israel; ele é o filho de Davi. Para comunicar tal novidade Mateus organiza seu texto em cinco blocos, com dois capítulos introdutórios (caps 1-2) e no final a narrativa da morte e a ressurreição (caps 26-28). Jesus é o novo Moisés que com autoridade própria vai muito além na interpretação das leis que os líderes de Israel faziam. O critério decisivo é a solidariedade com os pobres (cf. Mt 25,31-46 o juízo final). Ademais, Deus se torna visível em Jesus. O autor encerra sua obra assegurando-nos de que no grande trabalho de anunciar ao mundo inteiro as práticas inspiradas na justiça de Deus, nós podemos contar com a presença permanente do Ressuscitado (Mt 28,19-20).
O Evangelho de Lucas é a primeira parte de uma obra que quer mostrar que a salvação que Deus oferece em Jesus é para toda humanidade; a segunda parte desta é o livro dos Atos dos Apóstolos. Jesus de Nazaré é o Messias dos pobres; sua práxis é ação política, seu manifesto político apresentado na sinagoga de Nazaré (Lc 4,18-21) é a continuação da promessa de Deus que já se encontra no Profeta Isaías (cf. Is 61,1-2). Por isso mesmo sua atuação gera conflitos e tensões. O império que se sente ameaçado, assassina o rabino de Nazaré “na forma da lei”, por uma ação bem coordenada, porém o “eliminado” ressuscita; hoje seus inúmeros seguidores se engajam no estabelecimento de uma nova história de novas relações e organizações em todos os cantos do mundo.
João, no quarto evangelho, apresenta a pessoa de Jesus de Nazaré (o Verbo de Deus) num momento em que surgiram resistências sobre seu ser “o Filho de Deus”. O autor usa sete “sinais” para provocar uma decisão nos seus leitores a favor ou contra o seguimento de Jesus, o Filho de Deus. Nesta obra “os sinais” são gestos reveladores da sua filiação do homem Jesus de Nazaré. Não há parábolas, nem aparece a expressão “Reino de Deus” neste Evangelho; no seu lugar “a vida” é a palavra-chave que desvenda o misterioso projeto de Deus para a humanidade revelado no Nazareno. O autor procura aprofundar a fé já conhecida, celebrada e vivenciada na certeza de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. É dele que provém “a vida”.

Pe. Kurian.

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